19/07/2012

.: CINEMA .: O Espetacular Homem-Aranha

Juro, de coração, que também não entendi a necessidade tão urgente que a Sony teve de realizar um reboot em uma franquia cinematográfica tão jovem e, ao mesmo tempo, tão bem-estabelecida quanto a do Homem-Aranha. Nem mesmo o fracasso de crítica e parte do público do terceiro filme justificaria recontar a história de um personagem meros cinco anos depois de sua última passagem pelas telonas. Mas, de qualquer maneira, preciso dizer que, pouco a pouco, cada notícia, cada seleção de elenco, cada foto que ia saindo de “O Espetacular Homem-Aranha” me deixava mais e mais ansioso pelo filme – e de maneira bem positiva. Apesar de ser fanático pelo Escalador de Paredes desde criancinha, não me incluí em nenhuma das duas categorias de xiitas que começaram a se digladiar via redes sociais, a saber: 1) os ferrenhos defensores de Sam Raimi e Tobey Maguire, que não podiam ver o Andrew Garfield nem pintado de ouro; e 2) os “odiadores” profissionais de Raimi e cia., que do dia para a noite apostaram todas as suas fichas na nova encarnação em película do herói e passaram a detestar oficialmente os três filmes anteriores.

Depois de finalmente assistir “O Espetacular Homem-Aranha”, uma coisa ficou muito clara para mim: não é preciso desgostar de um dos filmes para gostar do outro. Um não anula automaticamente o outro. Fato. Continuo gostando bastante do trabalho que o Raimi fez, o que inclui aí inclusive o terceiro filme, que até hoje ainda me agrada (embora, é claro, ele tenha sido aquele que menos resistiu ao teste do tempo). Fã confesso do Teioso, ele manteve uma linha de fidelidade ao espírito do Peter Parker das HQs, mas aplicando sua própria assinatura como cineasta. E, caríssimo leitor, devo dizer que me diverti horrores com “O Espetacular Homem-Aranha”. Não é um filme perfeito, está longe de ser o filme definitivo do Cabeça de Teia. Mas é um bom primeiro capítulo para a nova trilogia que se inicia, anunciando uma continuação ainda mais legal. Se seguir a mesma dinâmica da trilogia de Raimi, que começou com um filme bom e culminou num filme ótimo (“Homem-Aranha 2”, que para mim ainda é “pivotal” na história das adaptações de super-heróis para os cinemas), será a trajetória perfeita.

Curiosamente, “O Espetacular Homem-Aranha” segue uma estrutura de história bastante semelhante à do filme inaugural de Raimi, por mais que o vilão seja diferente e haja um foco ainda inédito nos pais de Peter, Richard e Mary Parker. Mas o competente cineasta Marc Webb (vejam só que sobrenome adequado!) acerta justamente em algumas das coisas que sempre me incomodaram nas três obras de seu antecessor. A primeira delas é o protagonista. Não, eu não tenho qualquer rejeição pelo Tobey Maguire, entendam bem. Mas sempre o achei pouco, digamos, jovial para viver Peter Parker. E me incomodava aquela expressão de chorão que ele insistia em usar em alguns momentos. Além do porte físico do tipo magrelo, bem ao estilão “Ultimate Spider-Man”, Andrew Garfield esbanja juventude e de maneira bem natural, sem forçar a barra. Ele consegue ser nerd até a alma mas, ao mesmo tempo, tem uma aura cool, anda de skate, tira onda de fotógrafo, tem o cabelo milimetricamente desgrenhado. Digamos que o nerd interpretado por Garfield é bem menos óbvio e genérico do que aquele vivido por Maguire.

Aém disso, ele tem o aspecto do gênio científico que, nas películas de Raimi, acabou ficando um tanto apagado – apesar da relação entre Parker e o Dr.Otto Octavius no segundo filme da antiga trilogia, por exemplo. E sim, finalmente, quando Parker veste a máscara, eis que finalmente surge o humor. Isso é notório nos gibis, já que a faceta super-heróica de Parker serve para que o fracassado sujeito extravase e exorcize, com uma tonelada de piadas infames, tudo de ruim que o seu típico azar sempre lhe traz. As risadas são garantidas, dosando bem com o tom soturno e dramático de parte da trama, que soma à morte do Tio Ben uma pequena coleção de tragédias – se você é um leitor ávido das HQs, já deve ter sacado uma delas há um bom tempo, assim que o elenco começou a ser anunciado. Eu poderia dizer também que os efeitos especiais possibilitaram uma movimentação ainda melhor e mais empolgante do nosso amigão da vizinhança pelos céus de Nova York mas, vamos e venhamos, isso era mais do que obrigação de uma produção atual, com toda a evolução e desenvolvimento tecnológico de lá para cá. Todas as cenas, todas as poses, todos os trejeitos do cara “cavalgando” pelas teias são bem mais plásticos e fazem referência direta a alguns dos desenhos mais clássicos das HQs. Os nerds deliraram. Mas este não é o maior acerto de Marc Webb.


Se você viu “500 Dias com Ela”, vai sacar de imediato que ele é ótimo ao criar relacionamentos factíveis entre casais. E isso ele faz muito bem entre o Peter de Andrew Garfield e a Gwen Stacy de Emma Stone (aos desavisados: esta não é a Mary Jane loira, mas sim o primeiro grande amor da vida dele nas revistas em quadrinhos. É um moçoila completamente diferente). Emma dá de lavada em cima de Kirsten Dunst – que sempre foi, claramente, o elemento que mais me incomodou no universo comandado por Raimi. A Mary Jane de Dunst é uma ruiva sem graça, sem sal, sem tempero, por vezes até um tanto pentelha demais. Já a Gwen de Emma é muito real e vívida. É uma menina divertida, apaixonante, que apesar das dúvidas da adolescência e de um pai castrador, se joga sem pensar na vida e se aproxima de Peter sem se deixar intimidar pelo bullying de Flash Thompson. E quando começa o namoro entre os dois, é uma relação ao mesmo tempo tumultuada e cheia de brilho. Webb acerta a mão de maneira grandiosa ao retratar o casal sem apelar para a dicotomia padrão do nerd tímido e maltratado versus a menina popular e fashion. A cena final entre os dois é tão simples mas, ao mesmo tempo, tão delicada e graciosa, que dá vontade de tacar um beijo na testa do Webb e dizer: “é assim que se faz, rapaz”.

No que concerne aos defeitos, confesso que “O Espetacular Homem-Aranha” não me incomoda pelo retcon, pela reinvenção das raízes aracnídeas com foco nas pesquisas de engenharia genética Richard Parker para Norman Osborn (que não aparece, mas é citado nominalmente) ao lado de Curt Connors. Mas quando Connors se torna o ameaçador Lagarto, aí a coisa meio que desanda. E nada tem a ver com o visual dele, que pouco lembra a atual encarnação das HQs. Mas isso não importa tanto. Porque o monstro se manifesta não apenas quando ele está sob a forma verde e cheia de dentes da criatura, mas também o contamina quando ele aparece sob a forma do cientista. E, cá entre nós, o grande pulo do gato de um vilão como Lagarto é justamente o fato de que são duas personalidades distintas, tipo “o médico e o monstro”. Sem a presença de sua família, que serve, nas HQs, como âncora para que ele se apague à sua humanidade, Connors se torna apenas um homem maligno tentando conquistar o mundo. Guardadas as devidas proporções, não há lá tanta diferença, como antagonista, entre ele e o Duende Verde do primeiro filme de Raimi. E pensar que, ao longo de três filmes, as aparições de Curt Connors como coadjuvante iam apenas plantando a semente na cabeça dos fãs, desejosos de vê-lo tornar-se a descontrolada ameaça de dentes e garras a qual o Aranha teria que deter enquanto apelava para a consciência oculta de um pai de família sob o couro de lagarto.

Mesmo assim, por mais que tenha lá seus defeitos, por mais que o Tio Ben não diga a clássica frase “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades” (explicada com outras palavras, tudo bem), por mais que a presença de Richard e Mary na trama apague um tantinho o brilho da relação devotada de seus tios para com o moleque, ainda assim eu gostei muito de “O Espetacular Homem-Aranha”. Me pareceu, no frigir dos ovos, um filme mais integrado ao conceito de “Universo Marvel” criado pela Casa das Ideias com suas histórias conversando entre si nos cinemas do que foram os filmes de Raimi. É mais fácil imaginar o Aranha de Andrew Garfield interagindo com o Homem de Ferro de Robert Downey Jr. do que Tobey Maguire, oras (por mais que saibamos que são estúdios diferentes e que isso dificilmente vá acontecer tão em breve). Gostei do filme o bastante para ter plena confiança de que, seguindo neste caminho, teremos um “O Espetacular Homem-Aranha 2” com boas chances de ser memorável. Este aracno-fã espera ansiosamente que sim.

Um comentário:

Matheus disse...

Concordo com cada palavra! O filme é um agradavel inicio de uma trilogia com enorme potencial =D