03/09/2012

.: 5 PERGUNTAS PARA... Rob Gordon, vencedor do HQ Mix


1) Como diabos o leitor de quadrinhos que há anos vive em você encara o fato de que ele se tornou, mais do que um escritor de quadrinhos, um escritor PREMIADO de quadrinhos? Sinceramente? A ficha não caiu totalmente ainda. Já foi difícil fazer a ficha cair quando eu vi as primeiras páginas publicadas. Eu abria o Petisco, olhava as páginas e pensava: "cara, eu estou escrevendo uma história em quadrinhos!". Hoje, eu leio uma HQ e não consigo deixar de pensar que "eu também faço isso, eu também trabalho com isso." Para quem lê quadrinhos desde criança, a sensação é mágica. O tempo passou, e Terapia cresceu. Aí veio a indicação para o HQMix. Fiquei feliz demais – aquela sensação de estar no caminho certo, sabe? – mas não imaginei que a gente fosse ganhar. Os concorrentes eram ótimos, nossa história estava no primeiro ano e, mais importante: eu ainda não tinha nem assimilado direito a ideia de estar escrevendo uma HQ, como assim as pessoas vão dar um prêmio? Quando saiu a notícia que Terapia havia sido premiada... Eu não posso dizer que foi a realização de um sonho, porque eu nunca sequer havia sonhado com isso. Estava muito além do que eu planejava. Muito, muito além. Sempre soube que a HQ era muito boa, mas nunca imaginei que chegaria tão longe. E aqui eu preciso pedir desculpas: falei, falei, falei, mas não respondi direito, porque, como eu disse, a ficha ainda não caiu. Quando eu paro para pensar que "ganhamos um HQMix", preciso me beliscar ainda, ver que não estou sonhando.

  2) Contar uma história na web ou na página impressa é um processo bem diferente. Como mídia, você acha que existe algum tipo de potencialidade para as HQs na internet que ainda vem sendo pouco utilizada em comparação com o impresso?
Existem diferenças, sim. Especialmente no modo de contar a história. Como trabalhamos com uma página por semana, nossa obrigação é que não exista uma página ruim. Não digo que uma página mais fraca pode fazer com que a gente perca leitores, mas três ou quatro páginas ruins, em seguida, certamente vão fazer isso. Então, nosso desafio é entregar sempre a melhor página possível toda semana, para fazer com que o leitor esteja de volta na semana seguinte. Em cada página, você precisa contar a história ao mesmo tempo em que prende a atenção do leitor. É um desafio enorme. Isso é diferente de uma história impressa que tem mais páginas, como um Batman ou um Homem-Aranha? Sim. É uma edição com mais páginas, o ritmo é outro. Mas não é tão diferente assim se pensarmos nas antigas HQs que eram publicadas uma vez por semana nos jornais, feito Fantasma, Flash Gordon. Lá, também era preciso uma página que fizesse o leitor voltar na semana seguinte. Mas acho que a grande diferença de mídias é o alcance. Se não fosse a internet, será que eu escreveria uma HQ hoje? Duvido. Então, a grande potencialidade da mídia é apresentar novos autores, dar chance a um pessoal que não consegue entrar numa editora, mas tem um trabalho bacana. A internet é o melhor caminho para esse trabalho aparecer.

3) Aliás, com a eternamente alardeada crise que assola o mercado editorial como um todo, será que o futuro das histórias em quadrinhos estaria mesmo na internet? Ou isso é papo de catastrofista?  Como eu disse, acho que a internet é o caminho para uma nova geração, mas não guarda o futuro das HQs como mercado. Pois as HQs são objetos de coleção. Eu sou colecionador, você também é. Nós lemos quadrinhos na net, sim; mas se ele existe em versão impressa, nós queremos ter em casa. Queremos na prateleira, arrumado, em ordem. É coisa de paixão, de colecionador. Eu acho que o futuro das HQs está no mercado de nichos, que vem crescendo cada vez mais. Hoje você continua com as revistas de linha, mas você tem cada vez mais espaço para as edições de luxo, encadernados, que vendem em livrarias. Isso nunca vai morrer: as revistas de linha formam novos leitores; as edições de luxo satisfazem os colecionadores. Aliás, eu acho que a grande crise da indústria, hoje, não é editorial, mas criativa. E isso não acontece somente com HQs, mas também com música, cinema. Basta pegar um quadrinho de linha da Marvel ou da DC para ver as mesmas fórmulas dos anos 90, salvo raras exceções. Aí entra a internet. Como eu disse, ela forma novos autores, traz novas ideias, muda um pouco a cara do que está acontecendo.

4) O Rob Gordon que escreve "Terapia", claro, cresceu lendo gibis impressos. Você tem aquela pontinha de vontade de ver seu trabalho no papel, em mãos, como antigamente? Existe alguma chance disso acontecer?
Por partes: desde que escrevi a primeira página, meu sonho se tornou ver esse material impresso. Falo por mim, pelo Mario e pela Marina. E já que sonhar é de graça, sonho alto: uma edição de luxo, papel de qualidade, cores... Aliás, algo que não é negociável é ser colorido. Nem pensamos em uma edição P&B porque as cores que usamos são muito importantes para a narrativa, elas falam muito sobre o personagem e como ele está se sentindo. Os leitores querem, nós queremos... Olhe, sendo sincero aqui: vai rolar. Não sei como, com quem, por qual caminho, mais vai rolar. E, na verdade, uma parte disso está rolando. Existe hoje o projeto do álbum de coletâneas do Petisco, com uma história inédita de todas as HQ publicada ali. O bom é que apresenta os trabalhos da outras HQs do site para os leitores. O projeto é colaborativo e está no catarse (CLIQUE AQUI). Sobre a história de Terapia: será uma história paralela, jogando luz num personagem que, até então, foi coadjuvante. Ou seja, ela complementa a história principal e não será publicada na internet, é um projeto somente para este álbum. E aqui eu faço um apelo aos leitores, pedindo para colaborar e divulgar aos amigos. Eles sempre foram parte integrante do universo de Terapia. Entrevistas, matérias em grandes sites, HQMix....Nada disso teria sido possível sem a ajuda e o apoio dos leitores. Assim, estamos pedindo ajuda mais uma vez, nos comprometendo a entregar a melhor história possível. Tomara que dê certo, é uma história que eu quero muito contar.

5) O blues é a trilha sonora da série. Você acha que a trama teria rumos diferentes se fosse regada a jazz ou heavy metal, por exemplo?
Totalmente. Escolhi o blues justamente para acentuar o papel de “deslocado” do garoto. Pouca gente conhece de verdade e ouve o tempo inteiro, como ele. Especialmente o blues da primeira metade do século 20. Quantas pessoas hoje conhecem Robert Johnson, Muddy Waters? Isso aumenta o caráter de “solidão” dele; se ele ouvisse rock, pop, metal, certamente se comportaria de forma diferente, e teria mais amigos (ou ao menos mais gente com quem conversar sobre música). Você citou o jazz. Com o jazz, isso poderia funcionar da mesma forma. Mas escolhi o blues porque acho que é o gênero musical com emoções mais fortes, explícitas e carregadas – fora o caráter marginal da coisa, aquela filosofia de “não ter um rumo”, que só o blues tem. Isso tudo cria um contraste forte: as músicas são fortíssimas, emocionalmente falando; e ele é travado, reprimido. Para mim, uma das frases mais importantes sobre o relacionamento dele com a música é na página 7, quando ele fala que não toca blues, ele “constrói mundos para se abrigar”. E vamos ser sinceros: quem nunca se abrigou dentro de uma música num momento difícil?

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