23/11/2012

.: QUADRINHOS .: Os Mortos-Vivos Vol.10 - O Que Nos Tornamos

Robert Kirkman é um sádico.
E, é bom que se diga, um sádico genial.


São poucos os autores, sejam eles de quadrinhos ou não, capazes de fazer o que ele faz com seus personagens. E não, não estou falando de uma horda de personagens coadjuvantes descartáveis. Estou falando de personagens principais.

Ele mata personagens principais, as grandes estrelas da série, sem dó nem piedade. E justamente no momento em que cria vínculos de afeição dos personagens com os leitores. Arranca seus membros, os separa de seus filhos, joga seus entes queridos nos dentes de zumbis famintos, os leva ao limite da loucura. Tudo em prol de uma história que a cada edição fica ainda mais forte, emocional, dinâmica, surpreendente, envolvente. Uma paulada atrás da outra. Sádico miserável.

Na série de TV, “The Walking Dead”, os roteiristas tomam uma série de decisões corajosas, admito. Mas creio que jamais terão culhões de fazer o que Kirkman faz nos gibis – cujo décimo encadernado em português, “O Que Nos Tornamos”, foi lançado recentemente no Brasil pela HQM Editora.

Conforme já disse aqui, tenho tido mais tesão de ler as histórias destes mal-ajambrados seres cambaleantes e devoradores de carne humana do que os gibis de combatentes do crime superpoderosos e multicoloridos. E o motivo está claro e vívido em “O Que Nos Tornamos”. Com os zumbis mantidos apropriadamente como pano de fundo, ele chacoalha ainda mais o mundo de Rick Grimes, dando tons assustadores ao seu pequeno filho Carl (que medo deste moleque...) e mostrando até que ponto pessoas como o ex-policial e o seu novo “amigo”, o militar Abraham, têm que chegar para manter o que mais amam e o que acreditam. Em meio aos monstros, os humanos testam as suas próprias humanidades e se descobrem capazes de atos pavorosos.

Ver Rick mordendo o pescoço de um sujeito para salvar a vida de Carl, desenhado quase como se estivesse zumbificado, é o retrato direto de uma nova realidade. Adorei ver Rick voltando ao seu ponto de partida para reencontrar Morgan e seu filho Duane, aquela dupla com a qual teve contato lá no começo, antes mesmo de começar sua jornada em busca de Lori e Rick. E me regozijei ao ver que Kirkman foi além do óbvio e reintroduziu os personagens na trama sem um saudosismo babaca. Mantendo a sua tradição, ele não deixou de abrir fogo e disparar sem perdão, despejando um destino trágico sobre eles também. Que baita sacanagem, aliás. Me doeu, admito.

O protagonista Rick ainda está vivo? Sim, está. Você acha que ele jamais teria coragem de matá-lo? Olha, tenho dúvidas. Pode acontecer, até. Mas, honestamente, será que precisa? Veja o quão miserável a vida do cara se tornou. Veja tudo que ele perdeu. Veja o que as pessoas ao seu redor passaram a achar dele. A confiança se tornou medo. Ainda precisa matar o cara? Deixa disso. Acho que o Kirkman ainda vai tripudiar sobre a carcaça de Rick Grimes um pouco mais.

Roteiro: Robert Kirkman
Arte: Charlie Adlard
Tons de Cinza: Cliff Rathburn
Posfácio de Eduardo Schloesser
148 páginas
R$ 34,90

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