13/12/2012

.: CINEMA .: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

“Blind in the dark dungeon's night
So God please take me away from here
And Gollum shows the way right out”
(THE BARD’S SONG – THE HOBBIT, Blind Guardian)


Como todo bom jogador de RPG, lá pelos meus 12, 13 anos de idade, tive a experiência de ler “O Senhor dos Anéis” pela primeira vez. Devorei os três livros praticamente numa tacada só – e, embora tenha precisado reler a trilogia anos mais tarde para captar de fato algumas sutilezas, fiquei apaixonado. Mas é claro. Afinal, todos os anões, elfos, orcs e trolls que eu via traduzidos nas planilhas de “Dungeons & Dragons” estavam lá, vivos e em plena ação. Foi minha primeira experiência com a obra do autor sul-africano J.R.R.Tolkien. Muito tempo depois, já com 20 anos, não mais um adolescente e ganhando meu próprio dinheiro, adquiri minha primeira cópia de “O Hobbit”.

E devo dizer que aí sim, me apaixonei. Mas me apaixonei de verdade. Sou, com muito orgulho, daquela parcela de fãs de Tolkien que preferem este volume único aos três imensos tomos da batalha contra Sauron. Adoro “O Senhor dos Anéis”. Adorei os três filmes inspirados na obra. Mas sou fanático por “O Hobbit”, que considero um dos meus 10 livros favoritos de todos os tempos. Que reação eu tive, portanto, quando me deparei com o retorno de Peter Jackson à Terra-Média, no primeiro capítulo de uma nova trilogia (“Uma Jornada Inesperada”), desta vez abordando a jornada de Bilbo, tio de Frodo, 60 anos antes dos eventos de “O Senhor dos Anéis”? Cravei no rosto um sorriso de orelha a orelha, ora bolas. Devo dizer que foi lindo. Simplesmente. O resultado final chega a superar, numa comparação capenga, o primeiro capítulo da trilogia anterior, fazendo “A Sociedade do Anel” comer poeira.

“O Hobbit”, o livro, é a introdução ideal para quem nunca leu “O Senhor dos Anéis”. Com uma história mais leve, intimista e com largos toques de bom humor (afinal, trata-se de um livro originalmente infantil, que Tolkien escreveu para seus filhos), ele nos apresenta o mundo de fantasia tolkieniano pelos olhos de Bilbo, um hobbit que vivia apenas e tão somente no universo controlado de sua própria toca. Quando o mago Gandalf o arranca de sua zona de conforto e o leva a uma aventura, ao lado de um bando de barulhentos anões, em busca de seu tesouro ancestral, guardado por um poderoso dragão de nome Smaug no reino perdido de Erebor, conhecemos cada detalhe com um gostinho de novidade, como no curioso aprendizado de uma criança. Em “O Senhor dos Anéis”, o leitor é atirado de paraquedas em uma enorme miríade de raças, nomes, linhagens e linguagens, sem ter o menor tempo de respirar. É tudo mais complicado para o leitor de primeira viagem.

Em “O Hobbit”, o filme, Peter Jackson percorre com inteligência o caminho inverso. Aproveitando o que a obra original tem mais de forte, é óbvio que ele também faz um filme mais leve, com um humor que “O Senhor dos Anéis”, os filmes, não têm. O segredo? Aproveitar o alívio cômico que são os 13 anões (à exceção, obviamente, da seriedade de Thorin Escudo de Carvalho) e dar espaço para Martin Freeman, o Bilbo mais jovem, brilhar. Aliás, Freeman carrega o legado dos pés-peludos do jeito que deveria: esbanjando carisma e trabalhando uma série de caretas, manias e cacoetes que todo leitor do livro sempre imaginou que Bilbo teria. Ao lado de um Ian McKellen cada vez mais solto, menos sóbrio e carrancudo e mais sacana (do tipo que entorna uma taça de vinho e pede mais), ele protagoniza um momento memorável no delicioso diálogo de “bom dia!” assim que o mago Gandalf chega ao Condado. Na memorável sequência do jantar do trio de trolls na floresta, quando os anões quase viram refeição, Freeman novamente rouba a cena. E em um dos pontos mais altos da projeção, a equipe de efeitos especiais mostra a que veio e, colocando Freeman ao lado de um Gollum ainda mais realista e de contornos impressionantes, recria o lendário momento das adivinhas na escuridão, desde já uma das cenas mais marcantes do cinema blockbuster no ano – e que apresenta um certo anel que ainda promete causar muitos problemas no futuro...

Mas Jackson, é claro, sabe que a maior parte de seu público será não de fãs de literatura que leram “O Hobbit”, mas sim de fãs de cinema que já viram a trinca anterior de filmes. Então, ele prepara o ambiente de maneira a fazer com que “O Hobbit” seja familiar também para este tipo de espectador. Fazendo modificações pertinentes na trama, com total respeito ao cânone oficial e à cronologia de Tolkien, ele cria conexões diretas com a ascensão da ameaça de Sauron, que aqui ainda começa a acontecer, de maneira bastante sutil. O mago Radagast, o Marrom, meramente citado no livro, aqui é apresentado oficialmente, com uma performance de Sylvester McCoy em tom quase lisérgico, a la Grateful Dead. O objetivo do crescimento do personagem? Dar um tom de maior urgência aos fatos que começam a mostrar que uma sombra vai, aos poucos, tomando conta da Terra-Média, desembocando nos eventos de “O Senhor dos Anéis”. Na cidade élfica de Valfenda, quando a Companhia dos Anões chega, Jackson cria um encontro do Conselho Branco, trazendo de volta Elrond (Hugo Weaving), Galadriel (Cate Blanchett, nitidamente mais bonita do que nos filmes anteriores) e Saruman (Christopher Lee, sempre mestre) para discutir o que diabos Gandalf está tramando fazer e as tais desconfianças sobre o retorno do Senhor da Escuridão. E para abrir o filme, antes de qualquer coisa, nada melhor do que recorrer ao rosto familiar do outro protagonista, Elijah Wood, que vive brevemente um Frodo mais do que curioso para saber que memórias seu tio Bilbo (no caso, em sua versão mais velha, interpretada brevemente por Ian Holm) está registrando em um diário.

Os três “O Senhor dos Anéis”, como bem se sabe, são filmes grandiosos, épicos, megalomaníacos até, repletos de batalhas com milhares de extras digitais e criaturas de dentes afiados para todos os lados. Para embutir um pouco mais do elemento “ação” em uma história que seria, originalmente, um pouco mais contida, Jackson deu um pouco mais de destaque e desenvolveu passagens como a batalha dos anões com os orcs em Khazad-dûm. Aliás, foi justamente nesta trecho que o diretor encontrou o vilão deste primeiro filme, o orc branco Azog, que ganhou muitíssimo mais espaço como um sujeito que coloca seus orcs, montados em wargs (os enormes e famintos lobos selvagens), para caçar seu grande inimigo, o futuro rei dos anões, Thorin Escudo de Carvalho. Junte a isso uma cena memorável na qual Gandalf e os anões correm a pleno vapor para fugir da fortaleza subterrânea dos orcs, entre pontes e construções de madeira caindo aos pedaços, e você tem toda a ação e a adrenalina que seriam necessárias para que os fãs de “O Senhor dos Anéis” saíssem satisfeitos. Tudo integrado de maneira bastante coerente à história principal.

O resultado é uma trama bem amarrada e eficiente, com um final que deixa a porta aberta para o próximo (com uma pequena sugestão de como deve ser o visual de Smaug, aqui mantido em segredo). Um filme que faz suas quase três horas fluírem como se fossem cinco minutos – e que, pelas minhas contas, já chegou a cobrir mais da metade do livro (o que diabos está sendo preparado para os próximos dois filmes?). Um filme que Peter Jackson dirige com a mesma intensidade, deixando a sua marca, a sua assinatura costumeira. Planos abertos com cenários deslumbrantes, fotografia lindíssima, efeitos especiais de cair o queixo que dão vida a criaturas inimagináveis, direção de arte impecável. Um filme que aqueles que odiaram “O Senhor dos Anéis” vão odiar ainda mais. E um filme que aqueles que amaram “O Senhor dos Anéis” vão amar de paixão. Na medida certa. E você, que leu “O Hobbit” e estava esperando estava adaptação tanto quanto eu – talvez até mais do que aquela primeira trilogia –, pode ficar sossegado. Peter Jackson fez um excelente trabalho. De fã para fã.

Sejam todos muito bem-vindos de volta à Terra-Média. E que os elfos, anões e, diacho, até mesmo os orcs, saibam que estávamos com saudades.



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