08/01/2013

.: CINEMA .: Detona Ralph

Quando saí da sessão da nova animação da Disney, “Detona Ralph”, cheguei a uma conclusão inquietante: quando a Pixar foi “anexada” à Disney, isso ajudou a melhorar consideravelmente a qualidade das animações da casa do Mickey Mouse. Basta ver “A Princesa e o Sapo”, “Enrolados” e agora este delicioso e divertido “Detona Ralph”. Mas, na via contrária, a relação com a Disney talvez tenha, nos últimos anos, influenciado de alguma forma na queda de qualidade dos lançamentos da Pixar. Exemplos claríssimos são o tenebroso “Carros 2” e o apenas bonitinho “Valente”. Vamos ser honestos: depois de “Toy Story 3”, “Up” e “Wall-E”, o padrão da empresa tinha subido consideravelmente, e os fãs de cinema esperavam algo pelo menos na mesma linha. Não aconteceu. Nem de longe.

 Espertamente, o camarada Sérgio Martins, da Veja, afirmou que “Detona Ralph” tenta fazer pelos videogames o que “Toy Story” fez pelos brinquedos clássicos – mostrando os personagens de jogos eletrônicos desempenhando uma vida social secreta assim que o fliperama fecha. A comparação faz todo o sentido: “Detona Ralph” tem mesmo o clima de “Toy Story” (em especial do segundo filme, para ser bem exato), entregando protagonistas carismáticos até a tampa como o próprio Ralph e seu parceiro de jogo, o conserta-tudo Félix Jr., que são versões 2.0 de Woody e Buzz Lightyear. Ao mesmo tempo, enquanto “Toy Story” transformava brinquedos que fizeram a infância de crianças de todas as idades, como o Sr.Cabeça-de-Batata e os soldadinhos verdes, em coadjuvantes brilhantes, “Detona Ralph” vai buscar nos grandes games dos anos 80 e 90 os vilões arrependidos que precisa, salpicando doçura e humanidade em sujeitos como o Bowser de “Super Mario Bros.”, o Dr.Robotinik de “Sonic”, o Satanás de “Diablo”, o Mr.Bison de “Street Fighter”, o Neff de "Altered Beast” e até o fantasminha de “Pacman”. As referências pegam imediatamente qualquer papai ou mamãe que se deliciou com estes jogos antes mesmo dos filhos darem as caras neste mundinho 1.0.

 A grande diferença de “Detona Ralph” para “Toy Story” é a direção que a história toma. No longa inaugural da Pixar, Woody vê o mundo que construiu para si mesmo completamente ameaçado pela presença de um novo brinquedo, Buzz. É uma história intimista, interna. Já em “Detona Ralph”, o protagonista segue o caminho inverso. Ela vai para fora do quarto. É um vilão de um videogame das antigas que, há três décadas, vem desempenhando o papel de destruidor, de malvado, arrasando o cenário (para Félix poder consertar) e sendo ignorado por todos os seu redor. Ele quer mais para si mesmo. Questionando o seu papel, ele deixa o seu mundo para trás e vai buscar uma medalha de herói, que pode lhe garantir um novo status quo. Depois de bagunçar um jogo futurista de tiro em primeira pessoa, Ralph cai em um game de corrida cor-de-rosa, em um mundo de doces, balas e chocolates. Lá, conhece Vanellope Von Schweetz, uma espécie de bug no sistema que, entre inusitados tilts, insiste que quer se tornar piloto de corridas, contra tudo e contra todos. Forçado a ajudá-la para conseguir sua medalha de volta, Ralph acaba se afeiçoando à pequena. E o resto é história. Mas história gostosa, ágil, interessante, do jeito que a Pixar sabe fazer. Mas esqueceu. Porque este é um filme da Disney. Não da Pixar. Confuso, mas é assim.

Em tempo, mencionando outra crítica já publicada do filme, a do amigo-irmão Paulo Martini no Judão, preciso concordar: a dublagem da ex-VJ da MTV, Mari Moon, para a pequena Vanellope ficou surpreendentemente boa para o que se esperava de uma famosa contratada para o papel de dubladora. Mari parece ter encontrado a fórmula certa para uma voz infantil e irritante, mas que ao mesmo tempo é pura e inocente. Tiago Abravanel, como o grandalhão Ralph, não compromete. Mas a Mari parece ter encontrado um novo nicho de trabalho. Se eu fosse ela, que já é fã declarada de animações (em especial as japonesas), eu investiria no ramo.

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