07/01/2013

.: QUADRINHOS .: Draconian

Desde que me tornei assíduo jogador e mestre do RPG de mesa “Vampiro: A Máscara” (da White Wolf), como bom fã de gibis, não foram raras as vezes em que imaginei aqueles personagens que eu e meus confrades criamos com tanta dedicação ganhando vida de fato em uma história em quadrinhos. O mesmo sentimento deve ter passado pela cabeça de Paulo César Santos (desenhos e roteiros) e André Farias (argumentos e personagens), que agora lançam “Draconian”, um encadernado reunindo nove histórias de sanguessugas contemporâneos e urbanos, ambientados em metrópoles como Nova York ou Paris. E detalhe: eles não brilham à luz do sol.

Na verdade, as histórias da dupla (vencedora do Anima Mundi 2001 com a animação “Crássicos da Periferia”) já são mais do que conhecidas dos leitores da lendária revista “Dragão Brasil”, onde eram publicadas justamente com a intenção de acertar em cheio os jogadores de “Vampiro”. Não há, obviamente, qualquer menção aos clãs da Camarilla (Ventrue, Tremere, Toreador, Malkaviano e demais) e outras marcas registradas do RPG original, mas é clara a sua influência ao mostrar as criaturas da noite agindo em segredo por trás dos bastidores da sociedade – assumindo papéis como o escritor de livros best-seller (uma das histórias mais inspiradas da edição, aliás) ou o garotão do tipo “nerd descolado”, a la Kevin Smith, que trabalha numa loja de revistas para pagar as contas e que, por acaso, precisa sugar sangue humano para sobreviver. É a mitologia dos filhos de Drácula ganha ares de inspiração pop. Basta ver a discussão dos amigos que classificam o gosto do sangue de suas vítimas de acordo com a religião para lembrar imediatamente de uma versão macabra de “Friends”, por exemplo.

O Observatório Nerd recebeu uma cópia de “Draconian” (124 páginas, R$ 20, www.facebook.com/draconianhq) e recomenda. Mas ficam duas ressalvas: a primeira delas, sobre a disposição dos diálogos. Como estamos falando de personagens verborrágicos, que falam pelos cotovelos, é preciso tomar cuidado com a forma que os balões tomam, ou eles podem tornar uma página poluída demais, incômoda de acompanhar. Brian Michael Bendis, por exemplo, é um autor que faz os desenhistas que trabalham ao seu lado rebolarem um bocado para se virarem com os imensos diálogos que ele escreve. Já o segundo “porém” fica para o traço de Paulo César – que é bonito e bastante detalhista. Mas que, em dados momentos, ainda carece de um pouco mais de personalidade. O artista ainda precisa procurar um tantinho o seu espaço, a sua característica peculiar, a sua assinatura. Meio travados em alguns quadros, seus personagens ainda lembram este ou aquele autor, por vezes resvalando em um estilo “americano-template”. Nada que estrague o conjunto geral da obra. Mas que, se melhorar para os próximos volumes (vão haver mais volumes, certo?), pode dar vida nova e ainda mais fôlego/agilidade às histórias. Basta apenas...soltar um pouco o pulso. =D

Em tempo: o título da coletânea de histórias faz menção direta a um álbum de uma das bandas favoritas de ambos os autores, Paradise Lost, o clássico “Draconian Times” (1995).

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