16/02/2013

.: CINEMA .: Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge


Aviso: este texto tem spoilers. Mas como demorei uma eternidade para ver este filme, imagino que todos os nerds do planeta já o tenham feito. Então, honestamente, creio que vocês não vão ler nada que já não saibam. 

Tá bom, eu sei que demorei. Foram as circunstâncias, não tenho culpa. Juro que queria, de verdade, mas não rolou. Não foi birra de marvete, até porque adoro o Batman. Mas é claro que uma hora ia acontecer, ainda mais porque o que ouvi de críticos especializados e amigos mais próximos me surpreendeu – eu imaginava que a continuação de um filme tão celebrado, com trailers tão potentes e impactantes, fosse tornar-se unanimidade na certa. Não se tornou. E, surpresa das surpresas, pendo até um pouco mais para o lado dos que não gostaram.

Vamos esclarecer: “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” não é um filme ruim. Tendo a assinatura de um diretor competente como Christopher Nolan (que tem lá seus maneirismos, vá, mas ainda assim é bem acima da média hollywoodiana), dificilmente seria uma obra que levasse o adjetivo “ruim”. Mas não é, nem de longe, sensacional, genial, monumental, incrível, inesquecível, como alguns afirmaram. Não é uma obra-prima, não é o melhor filme do ano passado e sequer mereceria a tal campanha pela indicação ao Oscar que os mais afoitos cogitaram. Vamos colocar assim: este terceiro filme é melhor do que “Batman Begins” (que sempre achei fraquinho, preciso ser sincero), mas está muitos degraus abaixo de “Batman: O Cavaleiro das Trevas” – que, para mim, é a visão definitiva do Homem-Morcego nos cinemas.

Antes de entrar na análise propriamente dita, é preciso comentar que a boataria que vazou tamanha quantidade de detalhes do filme na internet, em blogs e nas redes sociais, tornou a experiência um pouco menos impactante do que poderia, diminuindo o potencial das surpresas. Eu já sabia que Joseph Gordon-Lewitt era uma representação do Robin e que meio que seria o substituto oficial de Wayne sob o manto; sabia que o Bane ia reproduzir as HQs e quebrar a espinha do Batman; sabia que Liam Nesson e Cillian Murphy fariam participações especiais; e, principalmente, sabia que a personagem de Marion Cotillard não era apenas a empresária Miranda Tate, mas sim Talia Al-Ghul, herdeira da Liga das Sombras. E tudo isso semanas antes da estreia. Neste sentido, ser um internauta conectado e atento às notícias estragou um tantinho do filme para mim.

Enfim, voltemos à vaca fria.

Que o Bane escolhido por Nolan para ser o grande antagonista de “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” guarda quase nenhuma semelhança com o seu paralelo nos quadrinhos, já se tinha certeza. Diferente do maníaco unidimensional e sem graça das HQs, este Bane é uma espécie de encarnação do caos, que chega à Gotham para submeter os cidadãos ao inferno e, assim, tentar libertá-los de suas vidinhas medíocres sob o jugo das grandes corporações. Em resumo? Se era para usar um personagem assim, por que escolher o Bane? Por que não selecionar outro vilão da vasta galeria do Morcegão, mais adequado para este papel? Numa trama cujo objetivo era costurar os três filmes, fica nítido um vazio, que obviamente Nolan não esperava. Um vazio chamado Heath Ledger. Depois da sua colossal interpretação para o Coringa na película anterior, fica claro em dados momentos deste terceiro filme que o a trama tinha um destaque todo especial guardado para o Palhaço do Crime. E é nestes espaços que Bane não se encaixa, simplesmente não funciona.

Para explicar onde acho que, de fato, “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” não decola e não conseguiu me convencer, preciso traçar um paralelo com os bat-gibis. Sempre defendi que, salvo raríssimas exceções, o Batman brilha quando é retratado em graphic novels, nas mãos de autores com liberdade criativa o suficiente para testar os limites do personagem – leia-se “A Piada Mortal” e afins. Nos quadrinhos publicados mensalmente, no entanto, o camarada tem sofrido um bocado nos últimos anos, com uma coleção de roteiristas sem inspiração que o expõem a situações ridículas que simplesmente não combinam com o conceito do patrulheiro das ruas de Gotham City, lutando contra suas próprias trevas enquanto enfrenta um monte de psicopatas. É a mesma coisa desta galera que insiste em jogar, por exemplo, o Homem-Aranha nas batalhas cósmicas da Marvel. Não funciona. Fica deslocado, sem nexo, sem sentido.

“Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” começa como uma graphic novel, retratando a paz antes da calmaria em uma cidade que enfrentou um furacão chamado Coringa e perdeu o seu “herói”, um sujeito de nome Harvey Dent. Batman assumiu a culpa da morte de Dent e sumiu, até ser despertado do seu exílio por uma certa senhorita de nome Selina Kyle, uma ladra agindo em nome de um figurão da diretoria da Wayne Enterprises, que quer derrubar o CEO que anda sumido. Perfeito. O começo ideal. A porca torce o rabo e vai para o lado dos gibis mensais quando Bane coloca a cidade em estado de sítio, declara lei marcial, explode um monte de explosivos que desfiguram a cidade e ameaça explodir um reator transformado em bomba atômica. É tudo enorme, surpreendente, bombástico, com o intuito de criar uma espécie de guerra civil nas ruas de Gotham, preparando um final épico.

Mas nada disso combina com o Batman. Combinaria com uma dezena de outros heróis. Mas deixa o coitado do Batman meio perdidão, ali, sem eira e nem beira. Lembram da saga “Terremoto”, dos gibis? Pois é. Um lixo, não? Agora, caro leitor, pare e pense em como ela se parece com o trecho final do filme? Bingo.

Vamos ser práticos. Boas histórias com o Batman são aquelas nas quais ele se manifesta como o Cavaleiro das Trevas que é, a eterna dicotomia com Bruce Wayne, o caminho constante na linha fina entre o bem e o mal, enfim. Boas histórias do Batman são mais sombrias, mais íntimas, mais noir, bem menos campo de batalha e explosões para todos os lados. Pense nisso: “O Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller só funcionava ao retratar este Bruce Wayne mais bélico, quase um general, porque estamos falando de um futuro apocalíptico. Mas esta não é a ideia deste filme. Aqui, a intenção é contar uma história contemporânea, dentro de uma ambientação que Nolan sempre quis que fosse mais, digamos, real – tão real quanto é possível ao se contar a história de um bilionário que se veste de morcego para combater o crime. Por que viajar tanto, querer crescer tanto, optar pelo bombástico apenas pelo bombástico? O segundo filme acabou se tornando muito mais forte, intenso, impactante, e sem precisar recorrer a expedientes tão óbvios. 

Isso sem falar na pressa para encerrar o filme, a partir do momento em que Bruce Wayne consegue sair do poço da Liga das Sombras. A conclusão acontece voando, a 120 km/h, Wayne chega num passe de mágica às ruas de Gotham, com a barba feita e pronto para o combate, depois de meses sofrendo num treinamento forçado. Nem dá tempo de saborear a revelação de Miranda, já que tudo se dá loucamente, sem envolver o espectador como deveria rumo a um clímax que, pra este que vos escreve, acabou sendo frouxo, fácil, sem força. Eu diria até cansativo. O tal sacrifício do Batman é uma decisão tão óbvia que, em nome de Stan Lee, por que raios ele não fez aquilo antes? Qual seria o problema de pegar a nave e alçar voo de uma vez com aquele diabo de caminhão a tiracolo?

Continuo achando que não dá para comparar banana com maçã. Que estamos falando de filmes bem diferentes entre si. Mas, entrando no joguinho que tomou conta das redes sociais no final do ano passado, na boa: sou muito mais ver “Os Vingadores” mais umas três vezes do que rever “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” sem nenhum motivo especial. E que comece a flame war novamente.

Se toda lenda tem um fim, espero que este não seja o do Batman. Ele merece bem mais.

PS: Sempre considerei a voz que o Bale faz quando usa o uniforme de Batman muito ruim, forçadamente gutural e violenta. Neste filme, ele ganhou um competidor à altura – a voz de Tom Hardy para o Bane ficou caricata demais, a ponto de perder um pouco o impacto necessário, em especial nas cenas em que o mercenário tinha que falar em público, fazer discursos de motivação para a população de Gotham City entrar no espírito de sua proposta de revolução. Não colou.

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