13/03/2013

.: 5 PERGUNTAS PARA... .: Fábio M. Barreto, autor de “Filhos do Fim do Mundo”

1) Nos dias de hoje, com todas as facilidades da internet e demais ferramentas de autopromoção, você acha que ficou mais fácil para um brasileiro se aventurar em campos como a fantasia e a ficção científica? Ou mesmo assim você ainda sente algum tipo de rejeição?
Bom, esses elementos continuam a ser ferramentas. Precisa saber usar e, acima de tudo, é preciso ter um mercado apto a ser afetado por elas. O crescimento da fantasia é claro e factual, assim como o do horror (ou algo bem próximo), com o sucesso de livros de vampiro (méritos aqui ao André Vianco e a uma geração de apoio composta por Adriano Vieira, Martha Argel e Giulia Moon). Já na Ficção Científica, a coisa continua complicada. Os escritores hard ainda têm muito que sofrer por conta do alto nível de detalhamento técnico ou viagens criacionistas. Pode ser impressão minha, mas as gerações Harry Potter / Crepúsculo, ou pelo menos a maioria dela, só consegue assimilar histórias bastante calcadas na realidade e ir a um planeta impensável ou encontrar seres lógicos a bordo de uma espaçonave está bem longe disso. Porém, universos paralelos ou temáticas incorporadas ao nosso mundo ganham força. Até por isso optei por “Filhos do Fim do Mundo” ser completamente baseado no mundo real, exceto pelo ponto de partida da história. É clichê dizer isso, mas a FC faz tanto sucesso no cinema e empaca na literatura, especialmente se o autor é nacional. Penso que a ausência da referência visual possa ser um elemento forte nessa questão, afinal, a natureza multimídia dos grandes sucessos literários na última década é grande. Talvez apostar em livros + graphic novels seja um caminho. Outro caminho é o curta-metragem. Fiz isso e deu certo, pretendo repetir a dose. Há muita coisa a ser tentada e criativo todo escritor tem que ser, o importante é não desistir, pois o caminho é árduo, o romance sobrenatural teen do momento vai vender mil vezes mais que você e toda a carga de cultura envolvida no livro de FC não é para todo mundo, logo, é preciso perseverar, criar o público e acreditar no seu estilo. Uma coisa essas ferramentas possibilitaram: existe mercado para tudo! Basta concluir o trabalho e fazer o que acredita, não o que essa ou aquela fatia de público vai comprar. Ter identidade é fundamental.

2) "Um repórter tentando se equilibrar entre a função de pai e de jornalista escalado para cobrir o caos pré-apocalíptico". Fala a verdade: "Filhos do Fim do Mundo" tem um tantinho de autobiográfico?
As melhores histórias não são aquelas com as quais nos identificamos? (risos). É um tantinho autobiográfico sim, claro. Algumas passagens da minha vida estão ali, assim como medos e pensamentos sobre a profissão. O jornalismo vive um momento complicado, de transição forçada e ninguém sabe como vamos colocar comida na mesa daqui uns 5 anos. A coisa já está impraticável para mim, por exemplo. A maioria dos veículos brasileiros prefere pegar material da internet, condensar numa matéria genérica e publicar. O correspondente entrou pelo cano no cenário virtual, agora é a hora da celebridade de nicho fazer o nosso trabalho. Tudo isso dá medo. Mas da adversidade surge a novidade. Transpondo para o livro, às vezes precisamos de momentos traumáticos para deixar algumas ideias de lado e redescobrir certas facetas de cada um de nós. “O Dia em que a Terra Parou” fala um pouco disso e “Watchmen” dá na cara, aliás, esse tema está espalhado pela FC. A humanidade adora se ver à beira da tragédia para, de forma espetacular ou desesperadora, se safar da destruição. Às vezes sinto que nos falta a noção de que o propósito é nosso maior inimigo. O fim do mundo, ou a perspectiva dele, tira toda a frivolidade da vida e lembra do objetivo primordial: sobreviver. Achei que “The Walking Dead” fosse seguir mais nessa linha, mas o trauma deles (na TV) já passou e agora eles estão concentrados em estabelecer uma nova ordem. O "pós" é interessante, mas muita gente segue essa linha. Preferi focar no momento de quebra! Quando a merda toda acontece e todo mundo ainda está meio atordoado. Já me senti muito assim em alguns momentos-chave da minha vida e quando pensei no que seria minha vida sem minha filha, senti até mais que o Repórter, aliás. Ele não existe. Minha tristeza foi bem real. Joguei tudo isso no livro.

3) Estar do outro lado da vitrine, produzindo conteúdo de entretenimento ao invés de apenas consumi-lo e resenhá-lo. Como é a sensação? É complicado ser a vidraça ao invés do tijolo?
A vidraça já foi estilhaçada faz tempo. Outro dia assisti a um documentário (adoro documentários!) com o criador de “Everybody Loves Raymond”, Phil Rosenthal, e ele disse algo fantástico: "faça a série que você quiser, pois, no final, vão cancelar de um jeito ou de outro". Isso vale para a literatura. É tudo questão de perspectiva, momento de vida, bagagem e disposição. Agradar todo mundo é impossível (embora, lá no fundo, você ache que vai conseguir!) e é preciso ser fiel à história. Ela manda nos personagens, nas decisões, na quantidade de descrições ou volume da ação. Se a história é forte, o esforço vai valer a pena. Digo isso, pois é bem difícil ficar na incômoda posição de ser o criador de conteúdo (seja no cinema ou na literatura) e ser inevitavelmente julgado por todos que tomam contato com a obra. Rola uma pressão incômoda. Às vezes dá vontade de explodir, pois algumas pessoas te tratam pior do que ladrão. O Brasil ainda é bem problemático quando precisa lidar com realizações. Parece que temos vergonha, que fazer algo é razão de vergonha. Sabe aquela história do "pô, que carro legal!", aí você responde "mas é usado, tá com probleminha!". A coisa piora na literatura ou no cinema. Por ter feito um "filme", inevitavelmente, o espectador vai comparar o resultado com o último do Spielberg ou, no caso do livro, se não for tão bom quanto o escritor favorito da pessoa, não presta. Já fiz muito disso e levou tempo para descobrir a realidade dessa situação: se um produto não funciona para você, não significa que ele seja necessariamente ruim. É isso que faz o ato de criticar profissionalmente ser algo tão questionável. Até que ponto é subjetivo e até que ponto é uma análise técnica? Subjetividade pode permitir uma melhor compreensão, mas também pode anular realizações relevantes de determinada obra. Perceber isso foi importante quando decidi parar de tentar ser crítico. Faz tempo, mas ainda lembro dessa decisão. Há ego demais por aí. Criar é mais interessante, você vira alvo, mas pode se orgulhar de ter feito algo e influenciado pessoas, não viver de subproduto da criação alheia. A experiência com “Filhos” tem sido boa, pois a recepção tem sido muito boa e quando aparece alguma crítica, procuro encarar de forma profissional, avaliar a validade da opinião, aprender com ela e tocar o barco. Ficar melindrado te deixa maluco.

4) Em um mundo no qual os catastrofistas de plantão alardeiam a morte dos livros impressos graças aos e-readers, você acha que ainda vale a pena se aventurar no mundo dos volumes físicos?
É um tesão pegar o livro na mão e poder dizer: "é meu! eu que escrevi!". Ainda deve ser uma sensação romântica de quem cresceu em redações e sempre conviveu com impressos (meu pai é gráfico, então a vivência começou cedo; sei operar impressora tipográfica!). Até gosto de e-readers, mas sou facilmente distraído pela nova mensagem do Twitter ou por algum alerta do Facebook. No livro isso não existe. Se estou com o livro, ele é meu único companheiro. A relação é mais interessante. Mas, fazendo referência à questão anterior, essa sensação é completamente subjetiva. Até hoje não consegui finalizar nenhum livro no iPad. Reconheço a validade e espero que o próximo passo do livro impresso seja já incluir uma cópia digital no momento da compra. Gostaria de ter a possibilidade de carregar minha biblioteca e, quando tiver oportunidade, ler um pouco no avião, no consultório, enquanto espero a comida ficar pronta. Não gosto dessa ideia de termos que pagar várias vezes pelo mesmo conteúdo. Assim como foi com a música, a literatura vai ter que encontrar um modo de integrar os dois mundos.

5) Pra você, qual seria o verdadeiro fim do mundo?
O prólogo de “Filhos” é resultado dessa pergunta. Pensei num mundo sem a minha filha. Fiquei apavorado; tive calafrios; quase chorei só de pensar.

Link para o livro!
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