04/03/2013

.: QUADRINHOS .: Os 50 anos da Mônica


Na semana em que a personagem mais relevante das HQs nacionais completa cinco décadas de publicação, simplesmente não consigo esquecer de uma frase que ouvi em uma banca especializada em gibis da minha terra-natal, Santos. Eu devia ter em torno de 15, 16 anos. Estava sozinho, num ritual que o adulto de hoje mal consegue repetir. E um par de moleques, mais ou menos da minha idade, discutiam animados sobre o quão importantes eram este ou aquele autor. Não me lembro com clareza como a conversa entre os dois começou, mas devo ter pegado a discussão pela metade, enquanto procurava meus gibis de sempre do bom e velho Homem-Aranha. Dentre uma e outra menção a nomes como Neil Gaiman, Alan Moore, Frank Miller e Grant Morrison, um dos camaradas levantou, em tom jocoso: “E o Mauricio de Sousa?”. O outro, indignadíssimo, levantou o tom de voz: “Eu, hein? Turma da Mônica é tosco demais. Coisa de criança”.

Os dois se acabaram de gargalhar. Me subiram, garganta acima, uma tonelada de argumentos para fazer os dois donos da verdade repensarem seus conceitos. Mas respirei fundo, paguei minhas revistas e saí. E sem distribuir uma única coelhada, leia-se. Não foi a primeira vez em que ouvi alguns catedráticos fãs de HQs ditas “adultas” desdenhando do trabalho do mestre Sousa com a turminha do Bairro do Limoeiro. O que estes sujeitos nunca conseguiram compreender, de fato, é que nos dias de hoje, é raríssimo que um personagem oriundo das HQs consiga resistir tão bravamente no imaginário popular tendo como veículo-base as mesmas HQs nas quais nasceu.

Explico: este mês, temos um outro filhote de tinta da Nona Arte completando cinquenta anos de caminhada em quadrões e quadrinhos. Trata-se do Homem de Ferro. Agora, fica a questão: a molecada de hoje, os meninos do alto de seus 5, 6, 8, 10 anos de idade, são apaixonados pelo Vingador Dourado. Isso sem dúvida. Mas...por causa dos gibis? Nunca, mas nem de longe. O Ferroso é tão popular junto às novas gerações especialmente por conta da memorável performance de Robert Downey Jr. nos filmes do herói. Posso apostar que muitos destes jovens fãs de Tony Stark nunca sequer tocaram numa revistinha do cara, tampouco sabem o que diabos é a tal “Guerra das Armaduras” ou o “Demônio na Garrafa”. Não é, todavia, o caso da Mônica.

A dentuça e suas dezenas de coadjuvantes estão em desenhos animados, em camisetas, em games para a web, em uma infinita miríade de produtos licenciados. Mas a base são sempre os gibis. O primeiro contato infantil com a garotinha do vestido vermelho começa nas páginas das revistas, em um ato contínuo passado de pai para filho. Meninos e meninas se apaixonam pelos muitos títulos que continuam inundando nossas bancas, com sucesso, ano após ano, graças a um hábito que muitos pais ainda mantém. O meu caso, aliás, é emblemático: sou fã e leitor de HQs desde sempre, desde que aprendi a ler com elas, desde que me tornei de simples leitor em colecionador, de comprados eventual em um nerd declarado. Conforme fui crescendo, eu mesmo abandonei a Mônica, o Cebolinha e o Cascão para ler os super-herói de cronologia atribulada que até hoje me acompanham e tomam conta dos armários da minha casa. É óbvio que também me apaixonei por Gaiman, Moore, Morrison e toda aquela galera. E por Laerte, Angeli, Glauco e os chicletes com banana de plantão. E por japoneses, franceses, ingleses. E passei anos sem ler a Mônica, coitada.

Muito tempo depois, me tornei pai. Minha filha cresceu. Se alfabetizou – e, como não poderia deixar de ser, com a ajuda dos quadrinhos. Eu trouxe a Mônica para a vida dela, sem pensar duas vezes, confiando total e plenamente nas delícias que aquelas histórias me trouxeram e sabendo as memórias gostosas que deixariam também para a minha herdeira. Ela cresceu. E agora, quase com 10 anos de idade, virou fã da turminha. Uma turminha que, sem que eu percebesse, acabou voltando para a minha vida, acabou entrando novamente na lista de leituras obrigatórias da minha casa – agora com toda um novo (e incrível) elenco de coadjuvantes. Uma turminha que, sem perder em nada a sua essência original, soube se renovar, se recriar, se reinventar. Mesmo a Turma da Mônica Jovem, que minha filhota ama e a respeito da qual tenho lá minhas ressalvas do ponto de vista criativo (já expostas aqui neste blog, aliás), é preciso admitir que se tratou de uma cartada de mestre, ampliando seu espectro de ação, buscando novos leitores, mantendo alguns que por ventura já tivessem se desligado da Mônica rumo à adolescência. Não à toa, os quase 600 mil exemplares que algumas das edições da Turma Jovem têm nas ruas superam (e muito!) a circulação dos quadrinhos do Aranha e sua turma da Marvel nos EUA.

A dupla de adolescentes que me irritou no passado deveria entender que, mais do que a Mônica, quem merece parabéns mesmo é o papai Mauricio e sua competente equipe de criadores, que mensalmente entregam entretenimento infantil gostoso, de qualidade, que não subestima a inteligência das crianças. Afinal, quando o trabalho de um homem consegue fazer com que uma menina, minha filha, diga que um dos presentes que quer ganhar de aniversário é justamente um autógrafo do Mauricio de Sousa, fica claro que este homem está fazendo o seu trabalho bem direitinho.

Valeu, Mauricio. A minha infância e a dos meus filhos agradecem.

2 comentários:

Fabian Fontoura disse...

Parabéns, Thiago, perfeito como sempre. E, claro, parabéns e obrigado, Mauricio!

lipe fonseca disse...

minha mãe leu , eu leio e, se me cachorro não fosse vesgo, leria também. Adoro Turma da Mônica, sinto orgulho de comprar, ler com minhas afilhadas e até comentar num blog nerd sobre os gibis. Detalhe: o Cebolinha é o meu favorito EVER!