04/04/2013

.: MÚSICA .: Review de CD .: Comedown Machine (The Strokes)

 O amigo Ricardo Seelig, também crítico de música, ficou surpreso com a reação exacerbada de alguns jornalistas especializados e mesmo dos fãs de rock alternativo ao novo disco dos Strokes, que atende pelo nome de "Comedown Machine". Segundo ele, os comentários beiram um comportamento xiita que, em outras ocasiões, seria atribuído apenas aos headbangers mais radicais em sua defesa ao heavy metal intocável e inabalável.

Este que vos escreve, por outro lado, não se surpreendeu. Não foram raras as vezes em que vi indies e hipsters vociferando indignados contra esta ou aquela banda que resolveu experimentar e seguir um caminho sonoro diferente, por mais surreal que pareça. Entende-se, desta forma, a fúria tradicionalista contra "Comedown Machine": apesar de ter reconhecíveis algumas das marcas registradas dos novaiorquinos, o disco está longe da sonoridade crua dos álbuns que, há alguns anos, os colocaram no topo do hype do rock vintage. Esta quinta bolacha de inéditas dialoga diretamente com o bom pop dos anos 80, de bandas como Human League e A-Ha, gerando uma coleção de hits gostosos, divertidos e iluminados. Se você pensou em "Phrazes For The Young", o disco solo do vocalista Julian Casablancas, talvez tenha acertado na mosca.

Já é público e notório que o processo de gravação do disco anterior, "Angles" (2011), foi bastante tenso, com Casablancas se colocando em uma espécie de exílio e gravando todas as suas partes separadamente do restante da banda. Aqui, a sensação que fica é que eles estão se divertindo horrores. omedown Machine é um disco de rock, não dá para negar, mas bem menos cinzento, menos urbano, menos empoeirado, menos Nova York. É mais espacial, atmosférico.

Que a guitarrinha distorcida que abre “Tap Out” não engane ninguém: logo ela dá lugar a uma batida de gostinho eletrônico, dançante, enquanto Casablancas exercita um par de falsetes para colocar os agudos lá em cima. Pura pista de dança. Aliás, é preciso dizer que a polêmica indie em torno de Comedown Machine começou muito antes, quando vazou “One Way Tigger”, cujo tecladinho travestido de sintetizador tocando de fundo e as guitarras exageradas levaram a comparações imediatas com o tecnobrega paraense de nomes como Gaby Amarantos. Um tanto de exagero, já que o ouvinte mais atento vai perceber que o quinteto foi buscar inspiração, isso sim, na linguagem dos antigos videogames (Nintendo, oi?) e, especialmente, na sonoridade dos animes. Mas tanto faz: o que importa é que a canção é uma delícia. Tanto quanto, por exemplo, a soturna e atmosférica “Partners in Crime”, que traz o cantor arriscando em sua melhor faceta Justin Hawkins, o frontman do The Darkness.

Sejamos sinceros: se você estava em busca da guitarra ríspida, suja e acelerada do rock de garagem, aquela mesma que ouviu em “Is This It” anos atrás, canções como “All The Time”, “80s Comedown Machine” e “Chances” têm a dose certa para tentar te satisfazer, pisando em território mais conhecido. Mas servindo acertadamente a este novo conceito de banda com o qual os Strokes resolveram flertar, é preciso avisar. Na maior parte do tempo, “Comedown Machine” soa mesmo é como “Happy Ending”, outro ótimo momento oitentista que parece beber na fonte de nomes como aquele mesmo David Bowie que, este ano, resolveu sair da toca.

"Comedown Machine" é colorido e divertido, tanto para os ouvintes quanto para a banda – e é uma delícia quando isso fica assim tão claro, tão nítido, tão evidente no trabalho de um grupo. Talvez estejamos falando do disco dos Strokes que menos soa, digamos, Strokes até hoje (pelo menos se formos considerar os Strokes apenas como aquela banda dos primeiros álbuns). Pode se tratar de um susto para quem queria um novo Is This It. Mas é, de fato, uma grata surpresa para quem buscava boa música.

Tracklist
Tap Out
All the Time
One Way Trigger
Welcome to Japan
80s Comedown Machine
50/50
Slow Animals
Partners in Crime
Chances
Happy Ending
Call It Fate, Call It Karma

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