01/07/2013

.: MÚSICA .: Pelo direito de poder dizer "não"

Tudo começou em uma polêmica entrevista para o programa Heavy Nation, da Rádio UOL. Depois de uma bem-sucedida turnê ao lado dos camaradas do Viper, André Matos pintou no estúdio para falar a respeito de seu novo disco-solo e dos shows especiais nos quais executa na íntegra o disco “Angels Cry”, debut de sua ex-banda Angra que completa duas décadas em 2013. Quando questionado justamente sobre o Angra, que busca um novo vocalista enquanto se apresenta excepcionalmente ao lado do italiano Fabio Lione, Matos não teve medo de entrar em terreno espinhoso e foi taxativo: “O Angra tinha que acabar”. Os headbangers de plantão piraram, as redes sociais de veículos especializados e fãs explodiram com o assunto. O #mimimi foi generalizado.

“Acho que já se tentou uma ressurreição com o Edu [Falaschi], que teve seus méritos”, explicou André, na sequência, elogiando aquele que outrora foi considerado seu desafeto. “Mas viver muito do passado, tapar buracos... Não adianta ficar insistindo em remontar. É por isso que muitas vezes preferi extinguir um projeto em vez de ficar dando murro em ponta de faca e tentar ressuscitar uma múmia, um cadáver". A postura já seria louvável, mas ele foi além – e admitiu que, embora tenham de fato surgido convites dos ex-colegas de banda quanto de empresários para uma reunião comemorativa, justamente em torno do aniversário de “Angels Cry”, ele negou. “Sempre deixei claro que não me interessa esse tipo de reunião que eu chamaria meio de mórbida. Passou, morreu...”. Pouco depois, ele daria uma entrevista ainda mais elucidativa para o jornal Folha de S.Paulo e explicaria sobre as razões de ter aceitado uma reunião do Viper e ter negado um projeto similar com o Angra. “Eu tenho uma carreira solo há sete anos e não fazia sentido parar tudo por causa disso. Nos meus shows, posso revisitar todas as fases e bandas das quais participei e nisso eu tenho muita liberdade. Voltar ao Angra soaria estranho, principalmente porque após a minha saída da banda nós não mantivemos contato. No Viper, pelo contrário, sempre fomos amigos e a turnê de reunião reviveu isso ainda mais. A incompatibilidade com os membros do Angra e o compromisso com a minha banda atual são os principais fatores para que essa reunião não aconteça”. Simplesmente perfeito. A expressão-chave é “incompatibilidade”.

Tentando se justificar, Kiko Loureiro, guitarrista e um dos líderes do Angra atualmente, confirmou que aconteceu a tentativa de aproximação. “A gente convidou ele para o que seria a comemoração de 20 anos do ‘Angels Cry’, ele não quis. A banda está de portas abertas para ele, mas ele não quer, então... Pensando no fã seria ótimo. Tem que pensar no fã e não individualmente”. E é neste ponto que discordo radicalmente do Kiko e concordo total e irreversivelmente com o André. Este negócio de “tem que pensar no fã” é de uma hipocrisia sem tamanho. Me soa, imediatamente, como algo do tipo “tem que pensar NO BOLSO do fã”. Porque obviamente um show especial, com possibilidade de se tornar um DVD ao vivo, seria um produto bastante rentável. E concordo que músicos vivem de sua música, merecem receber pelo seu trabalho, não nego. Mas discordo que, pensando nisso, tenham que se obrigar a tocar junto um grupo de pessoas que não se gostam. Se tivesse a mesma chance de dizer “não” que o André teve, eu preferiria não trabalhar ao lado de pessoas que não gosto. Qualquer um pensaria assim. Quem acompanhou a saída de André, Hugo Mariutti e Ricardo Confessori, o que geraria mais tarde a gênese do Sha(a)man, sabe que o rompimento foi pouco amigável. Por que forçar uma situação e arriscar expor, no palco, as rusgas, os desentendimentos do passado? Tudo em forma de música que soaria sem graça, sem tesão, sem paixão, sem vontade? Isso sim seria total e simplesmente inaceitável para os fãs.

Há quem queira argumentar que o André não é exatamente uma pessoa fácil de lidar – o que talvez fosse provado pela sua saída do Shaman e pelo retorno de Confessori para a companhia de Loureiro e Rafael Bittencourt na atual formação do Angra. Que seja. Ele pode ser o que for, pode ser um mala sem alça, uma diva, um Humberto Gessinger do metal. Não importa. Ele tem direito de dizer “não”. É simples. E chega a ser surreal que determinada parcela de fãs não aceite isso, que ache que ele é automaticamente obrigado a topar qualquer parada por tudo que o Angra já fez em sua carreira e blá-blá-blá. Nesta turnê comemorativa com o Viper, era nítido que o André estava curtindo, se divertindo ao lado de amigos de longa data. Quer tirar a dúvida? Vá ao YouTube, veja os vídeos. Sinceramente, alguém acha que aconteceria o mesmo entre ele e o Kiko? Nunca. Seria algo frio, robótico, sem alma.

No Twitter da coluna (www.twitter.com/Judao88FM), dois leitores questionaram a decisão do vocalista – afinal, ele não aceitou tocar “Angels Cry” com o Angra mas está tocando com sua banda-solo? Inicialmente, pode parecer um contrassenso. Também pensei assim, num primeiro momento. Mas mais tarde ficou claro para mim que a decisão denota respeito do músico com sua obra, a obra que o lançou para o mundo do heavy metal, que o tornou o que é hoje. E, sejamos honestos, a obra também é dele, lembrem-se. Ele ajudou a compor cada nota, cada verso, cada refrão. Ele tem tanto direito de executá-la, de sentir orgulho dela e, claro, de ganhar dinheiro com ela quanto seus antigos companheiros de banda. Por que fingir que a comemoração destas duas décadas simplesmente não existe?

Pode ser que André Matos esteja cuspindo para cima. Pode ser que, em um dado momento, lhe ofereçam uma quantia tão obscena de dinheiro que ele acabe topando e este argumento defendido de maneira tão ferrenha lhe caia direto e reto na testa. Não dá para dizer que nunca aconteceria. No entanto, pelo menos até o momento, o que posso dizer é que a atitude do André me soa incrivelmente coerente. O bastante, pelo menos, para servir de exemplo para determinadas bandas que, num passe de mágica, ressurgem das trevas e andam perambulando por aí, como sombras daquilo que foram um dia. Ou, como disse o próprio André, como múmias. Como cadáveres. Sacou?

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