14/08/2013

.: CINEMA .: As lesmas e a maldita praga azul

Nas últimas semanas, lá fui eu para o meu tradicional périplo pelos cinemas, levar a criançada para curtir os últimos lançamentos infantis. Uma verdadeira roleta-russa, devo dizer, porque você nunca sabe o que vai acontecer. Um deles eu já esperava ser forçado a assistir em algum momento, já que minha filhota, do alto de seus quase 10 anos de idade, parece ter ficado encantada com o ar pop e com o jeito independente da principal protagonista feminina. Trata-se da continuação do incrivelmente ruim "Os Smurfs", adaptação cinematográfica do desenho animado da nossa infância, misturando live-action e animação em um combo que dá arrepios na espinha.


Este segundo filme tem rigorosamente a mesma fórmula que o primeiro. O feiticeiro Gargamel (interpretando de maneira quase vergonhosa pelo excelente Hank Azaria) ficou preso em nosso mundo. Mas ainda precisa da essência Smurf para dominar o mundo, aquela coisa toda. Então, ele cria dois novos homúnculos, da mesma forma que fez com a Smurfette. Seu objetivo é roubar a fórmula que o Papai Smurf usou para transformar a mocinha em um ente azul, converter seus dois novos filhotes e então extrair a energia deles para sempre, abastecendo a sua varinha mágica. Gargamel está em Paris, abre um portal para o mundo dos Smurfs, traz a Smurfette para cá justamente no dia de seu aniversário, quando os seus amigos preparavam uma festa-surpresa e ela achava que ninguém tinha lembrado da data especial… Enfim, o resto você já imagina: ela fica do lado do Gargamel por algum tempo, se desentende com os irmãos que não são azuis, depois se apaixona por eles…zzzzzzzzzzzz.

Assim como Azaria, o sempre competente Neil Patrick Harris parece ter precisado pagar as contas em casa e voltou ao papel do humano bobalhão que ajuda os Smurfs por aqui. Só que agora seu personagem já teve um filho (batizado, adivinhe só, de Blue) e está numa contenda com o padrasto, que jamais assumiu como pai mas que é louco para se aproximar dele. Tudo óbvio, tudo mal-executado, tudo apressado. E com uma profusão ainda maior de piadas e trocadilhos envolvendo a palavra "Smurf". Sério. Já deu. O que pode ter sido engraçado nos primeiros 15 minutos do primeiro filme se esgotou antes mesmo que ele terminasse – por que prolongar o sofrimento em um novo filme, então? Até o gato Cruel, a única coisa engraçada de fato na película anterior, tem muito menos tempo de tela neste 2. Ou seja: motivo zero para assistir ao dito cujo. Leve seus filhos para ver um teatro de fantoches, que é muito melhor. Mesmo que eles sejam feitos de meia. Furada.


Já o outro filme que me me aventurei a ver foi a animação "Turbo", novo lançamento da Dreamworks, desta vez ao lado do meu pequeno, prestes a completar 3 aninhos. Num primeiro momento, a história da lesma que se torna superveloz e tenta disputar as 500 milhas de Indianápolis (!) me lembrou imediatamente "Tá Chovendo Hambúrguer", da Sony. Trata-se de uma trama rocambolesca, bizarra e sem sentido, mas que surpreendeu as platéias ao entregar um dos filmes mais divertidos do ano de seu lançamento. Não chega bem a ser o caso. "Turbo" não é "Tá Chovendo Hambúrguer" e nem mesmo "Meu Malvado Favorito", outra animação que chegou comendo pelas beiradas, como quem não quer nada, e tornou-se muito maior do que seus criadores sequer podiam esperar. Mas é um programa bem mais gostoso do que pensei.

A história é genérica, padrão, do tipo "eterno perdedor ganha poderes e desafia status quo para provar que pode ser muito mais do que estava destinado a ser". OK. Mas o timing é bom – a trama se desenvolve rapidamente, sem atropelos, sem exageros, sem excessos. Você pode não rir de gargalhar do início ao fim, mas os personagens são suficientemente simpáticos e carismáticos para cumprirem seu papel sem atrapalhar. Aliás, creio que o segredo de "Turbo" esteja justamente na coleção interessante de coadjuvantes (tanto no mundo das lesmas quanto no que diz respeito às suas contra-partes humanas, em especial os dois irmãos mexicanos), que ajudam a história simples e sem mistérios a ganhar corpo, a crescer, a culminar em um desfecho que parece até mais saboroso do que o de "Carros", da Pixar, se formos comparar a questão das corridas em alta-velocidade.

Resumindo? Dê uma chance às lesminhas. Mas evite se fascinar pelo saudosismo piegas dos homenzinhos azuis. Acredite: você vai se arrepender.