19/08/2013

.: CINEMA .: O Homem de Aço

Sendo honesto ao extremo, eu NUNCA gostei do Super-Homem nas HQs. Sempre tive um baita bode do escoteirão azul que, é preciso admitir, sofreu durante décadas nas mãos de roteiristas pouco inspirados. Não faltaram histórias nas quais ele acabou sendo retratado de maneira chapada, sem camadas, com contornos simplórios. Sempre me incomodou que a sua faceta alienígena tenha sido pouco explorada, assim como as implicações morais e éticas, tanto para ele quanto para os humanos que o cercam, de se tratar de um homem superpoderoso, o mais poderoso do planeta, a caminhar entre os meros mortais sem que ninguém desconfiasse em momento algum de que ele poderia, um dia, pirar e se tornar uma ameaça em potencial.

Se era para tratar o Super apenas e tão somente como um intocado e virginal paladino da justiça, sempre preferi a versão Christopher Reeve dos dois primeiros filmes – e vamos, em nome do Deus Absoluto dos Nerds, esquecer que o terceiro e o quarto sequer existiram. Nas últimas décadas, seja na série futurista "O Reino do Amanhã", na versão que Grant Morrison abordou dentro do conceito "All-Star" e/ou na releitura de sua origem que atende pelo nome de "O Legado das Estrelas", o Azulão passou a me interessar um pouco mais. Vi escritores tratando o conceito de maneira menos padronizada, entendendo a dualidade Clark Kent/Kal-El com mais cores, mais facetas. Mas e nos cinemas? Depois de "Superman – O Retorno", um verdadeiro ode retrô de Bryan Singer à obra de Richard Donner, seria possível ver um Super diferente? Ainda mais depois que Christopher Nolan abriu novas portas para o Batman (e, consequentemente, para todos os heróis DC) nas telonas?

Claro que seria. A promessa de Zack Snyder para o "O Homem de Aço" seria justamente esta, seguir o pedigree de Nolan, respeitando o canône mas dando-lhe uma nova face, mais "realista". A escolha de Snyder para o cargo de diretor já tinha me assustado um tanto, confesso. Fiquei com medo de que ele se calcasse unicamente em seus maneirismos visuais, que serviram muito à trama de "300" mas que levaram "Watchmen" à ruína. Também me preocupou bastante esta insistência em vincular o nome do Nolan à produção, usando sempre a expressão "mais realista". Tenho ficado cansado desta coisa de "realismo" que os Batmans do Nolan impuseram – acho um tanto cansativo ouvir fãs de cinema clamando por realismo na trama de um super-herói de HQ, cuja fantasia é justamente a coisa mais gostosa e divertida. Como diabos exigir realismo na história de um milionário psicótico que se veste de morcego? Na história de um adolescente que ganhou poderes de uma aranha geneticamente alterada e passou a subir pelas paredes? Ou, mais ainda, na história do último sobrevivente de um planeta distante, que vem para a Terra e ganha poderes além da compreensão? Não dá, né?

Felizmente, nenhuma das minhas duas preocupações foi à frente assim que vi "O Homem de Aço "- aparentemente, depois de todos os nerds do mundo, depois de toda a polêmica, depois de tantas opiniões dividas entre "muito bom!" e "um lixo sem tamanho". Senhores detratores, podem se rasgar: eu gostei deveras do filme. Não acho que seja perfeito. Mas acho que faz jus, sim, à história do personagem e sem deixar de atualizá-lo, conforme a DC vem querendo há tempos. Quase como se o personagem se tornasse uma mescla da versão clássica com a ousadia que foi impressa à sua nova encarnação pós-reboot, um pouco mais apimentada – o bom moço que sabe erguer o pescoço e encarar os problemas dentro dos olhos do adversário quando é preciso, e não uma Madre Teresa de Calcutá de capa vermelha.


Adorei a trama ter sido contada de maneira entrecortada, revelando a história de Clark aos poucos, desde a infância, com flashbacks eventuais (perfeita a sutil inclusão de Pete Ross e Lana Lang, por exemplo). Gostei muito de Krypton ter sido retratado não como um paraíso idílico de ciência, mas sim como um planeta que tentou se expandir pela galáxia, nosso planeta incluído, e cujos objetivos nunca foram assim tão nobres, depois de terem esgotado seus próprios recursos naturais. Me emocionei com a morte de Jonathan Kent (Kevin Costner, correto no papel), que acontece de maneira inteligente e com um motivo que acrescenta um ingrediente quase como "com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades" ao entendimento que Clark tem de suas habilidades. E amei que o Super-Homem, ainda inexperiente, ainda um tanto inseguro, seja alvo de total desconfiança da população da Terra – aliás, as muitas referências a Jesus Cristo (a idade, a conversa na igreja), mescladas aos muitos momentos de incerteza de Clark, vão deixando o espectador em dúvida todo o tempo, por mais que se trate do ícônico Super-Homem. "Será que ele está destinado a reinar sobre nós ou a lutar por nós?", é a pergunta que fica no ar.

Henry Cavill coube perfeitamente no papel. Tem a aparência, tem o olhar. E o uniforme, sem a cueca, ficou ideal. Russell Crowe fez um Jor-El combativo, sem precisar nem sequer tentar imitar Marlon Brando (ainda bem!). E o General Zod de Michael Shannon, com uma expressão alucinada que chega a dar medo, é um "vilão" que faz todo o sentido para a trama: um homem militarizado, que não faz o que faz por maldade, por um desejo de conquista da galáxia ou mesmo por ódio à casa dos El. Ele simplesmente luta por seu povo, por seu planeta, nem que para isso tenha que devastar o nosso planeta para trazer os seus de volta à vida e estabelecer um novo lar para a sua civilização. E sobre a Lois Lane da linda Amy Adams? Na medida certa. Genial a decisão de mostrar o seu lado inteligente, investigativo, uma vencedora do Pulitzer que, obviamente, sabe a identidade secreta do herói e não é enganada por um mero par de óculos.


O filme tem, de fato, um defeito importante, que eu teria corrigido na edição final: Snyder parece, em dado momento, querer encarnar o Roland Emmerich e espalha, primeiro por Smallville e depois por Metrópolis, uma onda de devastação que parece não ter fim. A luta em pleno ar entre Zod e o Supinho funciona que é uma beleza. O mesmo vale para o quebra entre ele, a sujeita que age como braço-direito de Zod e um de seus gigantescos asseclas, nas ruas da pequena cidade-natal de Clark. Mas a destruição, as explosões, os prédios caindo, as pessoas gritando e correndo em desespero, duram demais. É muito tempo perdido, ainda mais nos atos finais, quando se poderia mostrar um pouco mais do protagonista em ação, de luta corporal, ao invés de tiros, mísseis e raios laser.

Ah, o final. Vocês realmente juram que querem discutir o final? Sério que é isso que está norteando a opinião de vocês a respeito do filme inteiro? Vocês viram o mesmo filme que eu? Mas é nítido que, ao quebrar o pescoço de Zod, o Super-Homem não se torna um assassino. Era simplesmente a sua única opção, ou ele teria fritado uma família inocente com seu olhar de calor. Depois de fazê-lo, o herói se ajoelha, chora e grita, demonstrando claramente seu arrependimento, sua dor por ter matado a última pessoa no universo que era efetivamente de sua raça, de alguma forma igual a ele. Não é uma execução, meu povo. É uma decisão extrema, que ele foi forçado a tomar. "Ah, o Super nunca mata ninguém, ele nunca fez isso nas HQs". Mesmo? O próprio Zod, em história de John Byrne pós-Crise nas Infinitas Terras, foi vítima de uma decisão de Kal-El, que lança sobre o general e seus comparsas a força das kryptonitas verde, dourada, branca e vermelha do chamado Mundo Compacto. Muito mais forte, planejado e frio do que o acontece no encerramento de "O Homem de Aço".


É óbvio que senti falta do tema de John Williams, chamem-me de saudosista se quiserem. É evidente que fiquei esperando Shannon dizer "Ajoelhe-se perante Zod, filho de Jor-El", por mais a fala nada tivesse a ver com a trama e com o tipo de personagem que este Zod é, bem diferente do Zod de Terence Stamp. Mas gostei. Gostei e muito. Talvez eu tenha sido beneficiado com o bônus de assistir ao filme já sabendo que, na continuação, teremos um certo Homem-Morcego batendo de frente com Kal-El, querendo dar uma lição de responsabilidade – e isso me fez ver a película com outros olhos, enxergando possibilidades e potencialidades para o futuro. Pode ser. Mas isso não muda o fato de este pode não ser o Super-Homem que os leitores dos quadrinhos queriam ver. Mas acabou sendo o Super-Homem que este leitor de quadrinhos, que nunca gostou do Super-Homem, queria ver. Pra mim, já basta. ;)

3 comentários:

Patricia Carvalho disse...

Gostei tb Thiago, achei bem mais a cara dos quadrinhos do que os anteriores... Soh achei que teve muita destruicao na cidade, aquele monte de predio caindo nao tinha tanta necessidade, na minha opiniao. O fato dele aprendendo a voar foi bem bacana tb. Concordo com os seus comentarios.... fora que esse super-homem tb eh um colirio p os olhos. rs

Leonardo Bassoi disse...

Bem melhor que qualquer outro super-man. A destruição em massa nas cidades é bem mais realista do que a ilusão de que nenhum civil se machucaria após a tentativa de invasão da terra. Louis Lane também é um colírio para os olhos.

Leonardo Bassoi disse...

Bem melhor que qualquer outro super-man. A destruição em massa nas cidades é bem mais realista do que a ilusão de que nenhum civil se machucaria após a tentativa de invasão da terra. Louis Lane também é um colírio para os olhos.