23/08/2013

.: CINEMA .: Wolverine - Imortal


Sei que esta é uma revelação inusitada para os fãs de HQs de super-heróis, mas preciso confessar: não gosto do Wolverine. Nunca gostei. Sei que, do alto de meus 30 e poucos anos, sou da geração que foi diretamente atingida pela fase do Jim Lee à frente dos mutantes, ali nos anos 90, ampliando alucinadamente a importância do baixinho canadense nos x-gibis. Não adianta. Não me convenceu. Sempre preferi nomes como o Noturno, o Arcanjo (em sua fase com as asas de metal, pós-Apocalipse) e mesmo o Gambit – isso sem contar o Ciclope, claro. Nem vou entrar nesta história. Mas a atitude marrenta de Logan nunca me atraiu, de fato. Dito isso, veja: apesar da diferença de estatura, acho que o Hugh Jackman imprimiu tanta simpatia e carisma para o papel que a versão cinematográfica do herói das garras de adamantium ganhou minha simpatia.

Chega a ser óbvio, portanto, que eu diga que Jackman é o principal trunfo para que "Wolverine - Imortal" funcione – ou, talvez, para que funcione na maior parte do tempo, mas já vamos falar sobre isso, calma aí. Depois do tenebroso "Origens", um verdadeiro show de vergonha alheia, não seria assim tão difícil superar as expectativas de quem resolvesse deixar a desconfiança de lado e dar-lhe uma chance. Mas até que este "Imortal" consegue, vejam só, ser melhor do que eu esperava, melhor mesmo do que os bons trailers tentavam nos fazer acreditar. Jackman está obviamente à vontade, mesclando humor e uma ferocidade que, até o momento, não tinha sido vista no carcaju em versão película – mas, sejamos francos, ainda sem o derramamento de sangue, tripas e miolos que alguns tanto gostariam de ver. Meninos, este é um filme blockbuster, de super-herói, para a família. Ainda não chegou a sua vez.

A trama, inspirada na clássica HQ "Eu, Wolverine" (de Chris Claremont e Frank Miller), obra que leva Logan para o meio de uma tradicionalíssimo conflito familiar no Japão, ganhou contornos mais simplificados. Na Segunda Guerra Mundial, o mutante salva a vida de um soldado japonês no exato momento em que a bomba atômica dos EUA é derrubada sobre Nagasaki. Décadas depois, este mero soldado se transforma num ricaço, dono de uma das maiores empresas de tecnologia da Terra do Sol Nascente. Sofrendo de uma doença fatal, já abatido pela idade, ele pede para encontrar o Wolverine mais uma vez. Quer curá-lo do fardo da imortalidade, tirando-lhe o fator de cura. E eis que nosso anti-herói é encontrado em um exílio, na floresta, ainda abatido pelo que foi forçado a fazer com Jean Grey ao final de "X-Men 3". A ruiva, inclusive, aparece recorrentemente em seus sonhos ao longo da projeção, sempre de camisola, para delírio dos marmanjos interessados nas belas curvas de Famke Janssen.

Quando Logan chega ao Japão, meio a contragosto, a situação é ainda mais complicada: o filho do senhor Yashida, com boas conexões na política corrupta e na máfia japonesa, a Yakuza, está interessado em assumir os negócios do papai assim que ele bater as botas. Mas o velho quer mesmo é deixar tudo para a sua neta, a doce Mariko. Quem é fã de gibis junta os nomes Mariko + Yashida e lembra imediatamente de um dos maiores amores da vida de Logan, talvez mais até do que a própria Srta.Grey. Eis então que o selvagem x-man se mete no problema de família, enfrentando problemas em seu fator de cura (fazendo-o encarar, pela primeira vez, os danos causados pelo corte de uma espada ou por uma saraivada de balas) enquanto se apaixona pela bela japonesa em sua fuga desesperada.

A trama caminha muito bem por este lado. Chega a ser surpreendente o quanto a coisa funciona, te envolvendo, optando pela simplicidade, por tratar da fraqueza do Wolverine, por colocá-lo diante de uma decisão do tipo "sou um soldado, um guerreiro por natureza, um samurai sem mestre. Mas não quero mais me render ao meu lado animal. Não quero mais matar". Se fosse assim até o fim, seria ideal. Mas não vai. A última meia-hora joga tudo pelo ralo. Percorrendo mais de 500km numa motocicletinha vagabunda, Logan vai salvar Mariko da ameaça final – e aí o filme apela para uma série de situações-clichê de filmes de super-heróis que não estavam fazendo falta alguma até o momento. Entra de fato em cena a Víbora, vilã dos quadrinhos que simplesmente não precisava estar no filme. Não teria necessidade, simples assim. Estávamos muito bem com Wolverine metendo as garras nos mafiosos, nos ninjas e na porra toda. Mas entram em cena vilões superpoderosos, robôs gigantescos feitos de adamantium, viradas na trama que envolvem manipulação genética e demais elementos da pseudo-ciência das HQs que parecem inclusão de última hora, meio que impondo uma surpresa desnecessária e forçada.

A batalha final do Wolverine contra uma versão bombada e absurda do Samurai de Prata chega a cansar, de tão genérica e com uma conclusão que parece subestimar a inteligência do espectador. Faria mais sentido se ele fosse apenas um cara vestindo uma armadura de prata - e, digamos, se fosse outro cara por baixo dela. Daria mais certo e faria mais sentido com relação ao restante do filme. Acabou que, graças a uma conclusão desastrosa, "Wolverine - Imortal" torna–se um filme apenas 2/3 legal. O que é, de fato, uma pena.

Nem preciso dizer, no entanto, que existe uma cena depois dos créditos – e você TEM que ficar para vê-la. Sério. Ela serve de introdução para "X-Men – Dias de um Futuro Esquecido", próxima produção estrelada pela equipe mutante. Você vai ver menções às Indústrias Trask (responsável pela produção dos gigantescos robôs caçadores de mutantes batizados de Sentinelas) e vai presenciar dois divertidos reencontros. Vale a pena de verdade perder mais alguns minutinhos na sala. Peça uma pipoca um pouco maior, rapaz.

PS: Meu lado nerd hardcore me faz levantar duas questões essenciais. A primeira delas tem a ver com cronologia – se, em "Origens", a abertura nos mostra que Victor Creed (o Dentes-de-Sabre) lutou ao lado de Logan em todas as principais guerras, chegando até a Guerra do Vietnã, ele não teria que estar ao lado de Logan na Segunda Guerra, quando ele salvou o soldado Yashida? Mas tem mais: no final, Logan tem suas garras de adamantium cortadas. Não vou dizer em que situação, mas é fato que logo depois as garras de osso crescem no lugar. Oi? O osso cresceu rapidamente por dentro do esqueleto de adamantium? Sério? Sem mais nem menos? Perdão. Eu precisava apenas pontuar isso ou não ia conseguir dormir direito.

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