04/08/2013

.: MONDO NERD .: The Gamers

Assistir aos filmes do cineasta/ator/roteirista/diretor/nerdmaster Kevin Smith é sempre um tesão porque, invariavelmente, ele acaba retratando um tipo de sujeito que se parece muito comigo, com você e também com boa parte dos seus amigos: o nerd viciado em quadrinhos. Todas as pequenas referências ao dia-a-dia de um personagem como o Brodie (Jason Lee) de "Barrados no Shopping" remetem imediatamente a mim mesmo e aos meus pequenos hábitos malucos de colecionador de HQs. Até então, no entanto, nunca se tinha visto uma filme ou série de TV (ou mesmo um gibi) que retratasse desta maneira tão fiel e divertida os trejeitos, manias e hábitos de um jogador de RPG. Quer dizer... até então. Isso porque você ainda não assistiu... The Gamers.



Vou deixar as apresentações iniciais para o grupo Dead Gentlemen, o bando de jovens malucos (tanto quanto eu ou você podemos ser) responsável pela película, que descobri ainda na época d'A ARCA:

"Certa madrugada, num dormitório da faculdade, quatro geeks socialmente ineptos começam a mergulhar num mundo de fantasia criado por eles mesmos. Enquanto seus personagens se encaminham numa jornada por reinos proibidos, ruínas ancestrais e florestas nunca dantes visitadas, os jogadores tentam resolver um misterioso quebra-cabeças que pode significar a diferença definitiva entre a vida e a morte. Quem é o Sombra? Onde a Princesa está escondida? Será que algum dia qualquer um deles vai arrumar um encontro? E quanto tempo vai demorar até que os vizinhos se incomodem e chamem a polícia?"
Não te lembra nada? Claro que sim, não é? Afinal, diferente do hollywoodiano "Dungeons and Dragons - O Filme" (que, por sinal, é uma merda, assim como todas as suas continuações), esta produção independente não é inspirada num jogo de RPG, mas sim no cotidiano dos jogadores. O grupo de malucos que fez este filme, os Dead Gentlemen, já faz filmes de baixo orçamento há um certo tempo. Mas, até então, tudo que eles tinham feito eram filmes de fantasia (aparentemente meio toscos, mas tudo bem), obviamente influenciados pela ambientação dos jogos de RPG. Eles até que se levavam a sério. Não é o que acontece com The Gamers, assumidamente uma comédia.

A premissa do filme, escrito e dirigido por Matt Vancil, é mostrar um grupo de jogadores e seu mestre no meio de uma partida típica de D&D (o nome do jogo é diretamente citado, leia-se bem). Então, a narrativa passa o tempo todo da mesa na qual eles estão reunidos para a aventura direto para o que está acontecendo com os seus personagens - que, por sinal, são os mesmos atores que interpretam, o que cria identificação imediata para que se saiba quem interpreta quem no jogo. Num momento você vê os jogadores discutindo, rolando os dados e fazendo uma ação ao lado do mestre - e, no momento seguinte, você vê os personagens deles sofrendo as consequências desta ação. "Eu sou um ladrão que é mestre no que faz, isso jamais aconteceria comigo", afirma o jogador. "Pois é, mas aconteceu, os dados não mentem", retruca o GameMaster. E, na cena seguinte, lá está o pobre ladrão caindo num calabouço...

O mais legal são as situações típicas de qualquer grupo de RPG que se preze. O colunista (e ex-funcionário da Wizards of the Coast) Monte Cook, que teve acesso ao filme, conta que logo no início da partida, um dos jogadores, o Mark, acaba faltando ao jogo. Qual a solução que o grupo encontra? Não dar fim ao personagem do cara, é claro... mas sim fazê-lo ficar andando com o grupo como um zumbi, sem tomar ação nenhuma ou dizer uma vírgula. Assim sendo, nas cenas que mostram o grupo no mundo da fantasia, vê-se um guerreiro caminhando de lá pra cá como uma sombra do resto dos heróis... Simplesmente perfeito! Os meus personagens já passaram por isso algumas vezes, acreditem... :-)

Outra cena emblemática que dá pra ver no trailer é a seguinte: depois de uma rolagem de dados, um dos players consegue um tirar um 20 naqueles dados típicos de D&D. É o suficiente para que a mesa toda delire e comece a comemorar... até que uma das vizinhas de alojamento, enfezadíssima, abre a porta do quarto enfurecida e grita: "CALEM A BOCA!!!", saindo logo em seguida totalmente puta da vida. Isso também já me aconteceu, só que em casa: jogando RPG na mesa da sala até às 3 da manhã, às vezes eu e meus amigos ficávamos meio exaltados... e lá vinha meu pai, morto de sono, mandar a gente ficar quieto...

Além do 'cavaleiro fantasma', o grupo de personagens é o mais básico possível: um elfo, um mago, um bárbaro e um ladrão. Os figurinos e os cenários das sequências nas quais eles são mostrados no mundo de fantasia são realmente bisonhos, coisa de terceira categoria... mas, cá entre nós: ficou muito legal assim mesmo! Lembra pacas aqueles live-actions de fantasia nos quais o jogador improvisa uma roupa de última hora, entende? Os atores não são profissionais (oras, eles são REALMENTE RPGistas) e os poucos efeitos especiais parecem retirados do Paint Brush, mas o fato é que, mesmo assim, a história parece melhor do que a de MUITOS (mesmo!) filmes americanos que invadem as nossas salas de cinema todas as semanas.

"CARALHO, ESTE FILME DEVE SER DEMAIS, MAS..."

A bodega foi lançada em 2001 - inicialmente, os realizadores excursionaram com a fita por uma série de convenções dos Estados Unidos, apresentando a comédia para um público que saía chorando de tanto rir ao ver um retrato super divertido de si mesmo nas telonas. Quando lançaram em DVD, vejam só, precisaram de legendas em português. E adivinha só quem foi responsável pela tradução e adaptação? Eu mesmo, este humilde escriba que vos fala. Admito que me enche de orgulho saber que tem um pouquinho de mim nesta produção, afinal de contas...

O filme pode ser adquirido diretamente na loja dos Dead Gentlemen: http://deadgentlemen.com/

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