11/09/2013

.: QUADRINHOS .: Chico Bento Moço

Podem odiar, se rasgar, xingar muito no Twitter, postar fotos depreciando a minha masculinidade no Facebook. O fato é que eu fui até a banca e tomei a iniciativa de comprar a primeira edição de "Chico Bento Moço", a versão mangá e mais madura do famoso personagem caipirinha de Mauricio de Sousa. E, senhoras e senhores, que rufem os tambores: eu gostei. E bastante, eu diria, para a surpresa geral – incluindo a minha própria. Embora, claro, eu tenda a acreditar que os próximos números devem seguir uma levada um tanto diferente. Já explico a minha teoria.

Assim que as primeiras imagens foram divulgadas, é óbvio que os especialistas dos fóruns de internet se apressaram a lançar suas opiniões definitivas sobre o assunto, cravando que o Chico tinha se tornado um cantor de sertanejo-universitário sem nem sequer ler um único quadrinho da história, do tipo "não vi e não gostei", cravando um catastrofismo que tinha direito até a comentários do tipo "ah, que saudades da minha infância, acabaram com os quadrinhos originais" - como se, vejam só, os gibis da versão criança do Chico e do resto da turma não continuassem a ser publicados mensalmente, sempre com histórias inéditas para quem quiser ler. Vejam: a "Turma da Mônica Jovem", primeira iniciativa do gênero da MSP, está longe de ser sensacional. Apenas de referências inteligentes à cultura pop e aos próprios coadjuvantes obscuros da editora, que só os fãs mais antigos captariam, os gibis das versões adolescentes da galera do Bairro do Limoeiro forçam a barra nos romances tipo "Malhação" e, por outro lado, nas tramas de fantasia/super-heróis ocidentais. Vira, em muitas edições, um mangá para meninas bem genérico, do tipo que os japoneses sabem fazer bem melhor. É um exagero que chega a cansar, mantendo aquele meu velho pensamento: "mas a Tina já não era a Mônica Jovem?". Enfim.

Já a ideia do "Chico Bento Moço" é inteiramente inédita. E é absolutamente respeitosa ao clima interiorano das histórias originais. Aliás, este primeiro capítulo é uma verdadeira exaltação ao estilo de vida do campo, com o Chico, do alto de seus 18 anos, sentindo antecipadamente todas as saudades dos banhos de riacho e das brincadeiras de pés-descalços. Aprovado no vestibular para cursar agronomia, ele vai partir para a cidade grande, onde vai morar ao lado do primo (aquele mesmo!) numa república. Além de ter que deixar, ainda que temporariamente, os pais e o primo Zé Lelé (mais interessado na vida simples da roça e em ajudar os pais no sítio) para trás, Chico sofre também por saber que sua amada Rosinha, 17 anos, vai estudar veterinária em uma outra cidade. Vão ficar distantes, muito mais do que já estiveram em toda a sua vida juntos.

Estamos diante de uma história que tem cara e gosto de Brasil, mesmo com este traço de inspiração oriental – que, sejamos honestos, podia ter sido abandonado nesta nova série, em particular. Mas, enfim. De qualquer maneira, este é o grande acerto de "Chico Bento Moço": falar a nossa língua, com um sabor familiar e natural, tanto quanto falam as HQs originais do pequeno Chico. O garotão dentuço e de cabelos desgrenhados comemora a conquista da vaga na praça, com o padre e o povo da vendinha, com a eterna professorinha que se tornou diretora da escola local. Ele vai pedir a "bença" da avó, curte o bolo caseiro da mãe, se senta ao lado do pai para contemplar o terreno carpido e até encara aquela tal daquela onça e dá de cara com um sujeito que lembra bastante um saci (será?). Chega a ser emocionante, devidamente guardado para as páginas finais, seu encontro com o Nhô Lau cujas goiabas o filho do Seu Bento tanto roubara durante a infância. Na medida certa.

Tudo é contado na medida certa, com timing correto, sem exaltações, sem recorrer a expedientes nipônicos de ação e olhos esbugalhados. Dá até para sentir um cheirinho de bolo de fubá e grama molhada no ar.

Minha grande preocupação, todavia, ficou escancarada já no primeiro parágrafo. A eterna rixa com Genésio, o filho ricaço do coronel, assim como a distância forçada de Rosinha e as descobertas (e trapalhadas) na cidade podem acabar levando "Chico Bento Moço" para uma trama mais urbana do que rural, o que seria um equívoco. Talvez fosse preciso equilibrar as duas ambientações para manter a mesma graça deste número inaugural. Consigo até sentir no ar uma história de que tanto a Rosinha e o Chico vão conhecer novas pessoas em suas respectivas faculdades, gerando uma ruptura em seu relacionamento – o que seria de uma obviedade tamanha, equiparando-se ao tema de novelinha adotado em "Turma da Mônica Jovem". É claro que seria exatamente isso que se acha que os tais teens, público-alvo destas publicações, gostariam. Mas o que eles mereceriam, com um tantinho mais de inteligência e sutileza, seria algo bem diferente.

E até o número 2, sô.

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