22/10/2013

.: CINEMA .: Kick-Ass 2

Nunca escondi de ninguém que não gosto do primeiro filme do "Kick-Ass". Aliás, nem é que não goste – mas digamos que ele é frustrante, porque começa bem, vai se encaminhando de maneira brilhante e descamba miseravelmente na reta final. O mesmo fenômeno que acometeu, por exemplo, a adaptação cinematográfica de "Watchmen". O primeiro "Kick-Ass", conduzido pelo competente Matthew Vaughn, é bem divertido e tem todo o espírito do gibi – até chegar na sua meia-hora final. Não sou um xiita pentelho, daquele tipo de leitor de HQs que não admite adaptações na obra original. Longe disso. Já falei um monte sobre isso por aqui, aliás. Gibi é gibi, filme é filme, são mídias diferentes, o diretor tem total liberdade para mudar o que quiser desde que seja com o objetivo de contar uma boa história. Afinal, nem toda história que funciona bem nos quadros de uma HQ se torna necessariamente e automaticamente um bom filme. Ok quanto a isso.


Mas o que Vaughn faz no final é de uma bunda-molice sem tamanho. Kick-Ass se torna, de uma hora pra outra, um grande herói. Deixa de ser o perdedor e conquista a mocinha e salva todo mundo no final, de jato nas costas e bazuca na mão. Não precisava, né? O charme do personagem é justamente ser apenas um moleque como qualquer outro, um fã de gibis com uma fantasia colorida tentando bancar o herói, mas se dando muito mal no processo, como toda e qualquer pessoa comum. Não tinha necessidade de pose diante da bandeira dos EUA e a porra toda. Não precisava o Big Daddy tornar-se um ex-policial herói, bastava que ele fosse só um cara comum querendo fugir de uma vida comum. Virou, de uma hora pra outra, um filme óbvio e padrão de heróis, tendo que derramar uma dose besta de glamour sobre os mascarados. Me decepcionou, especialmente porque gosto muito do trabalho do cineasta.

O grande erro de "Kick-Ass 2", agora sem Vaughn na direção, é justamente seguir por esta linha. O filme tem ótimas cenas de ação e, como já era de se esperar, é praticamente roubado do início ao fim pela deliciosa performance de Chloë Grace Moretz como a jovem psicopata e matadora Hit-Girl. Ela entrega os momentos mais memoráveis, em especial quando a trama rouba elementos da minissérie solo da personagem, tentando a todo custo deixar a vida de combatente do crime de lado e descobrir a doce agonia de ser uma pré-adolescente comum. Mas nos momentos em que a trama cai para o lado do Kick-Ass (agora musculoso e todo galã, o que não faz qualquer sentido, sejamos honestos), ela se torna lenta, modorrenta, numa tentativa entendiante de emular um filme de heróis moderno, para cativar a molecada das redes sociais com doses cavalares de adrenalina e tensão. O grande problema é que, nestes momentos, o humor simplesmente foi embora, deixando uma trilha de tragédias pessoais no caminho. E o humor, a capacidade dos personagens rirem de si mesmos, a capacidade de tornar até as tragédias em situações tragicômicas, são as peças-chave do conceito criado pelo escritor Mark Millar. E aí "Kick-Ass 2" se torna apenas mais um.

À medida que vai se aproximando da conclusão, "Kick-Ass 2" cavalga desesperado, ganhando contornos épicos, querendo tornar-se um daqueles filmes de heróis bombásticos, uma espécie de versão jovem dos Vingadores, uma verdadeira explosão de justiceiros multicoloridos num embate bombado em busca de vingança. Eu simplesmente abandonei toda e qualquer simpatia pelo Kick-Ass, o personagem, antes de termos menos de 30 minutos de projeção. Mas eis que o diretor consegue, aos 45 minutos do segundo tempo, fazer até o antagonista Motherfucker, a versão vilanesca do playbozinho Red Mist, um dos grandes trunfos do filme anterior e deste também, perder totalmente a graça. Antes um sujeitinho magrelo e cheio da grana que fica insistindo em tornar-se algo extraordinário, ele se torna um supervilão, bwahahahahaha, malvadão, sem escrúpulos. Mais um. Genérico. E nem a trama de seu tio, o mafioso que controla os negócios da família lá do lado de dentro da cadeia, tem um mínimo de destaque, sendo mencionada brevemente – sendo que, conforme a mini da Hit-Girl provou, esta seria uma pegada bastante interessante.

"Kick-Ass 2" não é bunda-mole como o final do primeiro filme. É muito, mas muito mais. Porque quando você opta pelas saídas mais fáceis, pela injeção de adrenalina, violência, trilha sonora no talo, gritos, é só mais um cara tentando ser radical, moderno, dinâmico. Assim como faz Quentin Tarantino, por exemplo, Vaughn sabe usar a violência de maneira gráfica para nos fazer rir dentro de um contexto meio pulp. Mas Vaughn não está em "Kick-Ass 2". E o que fica para trás é apenas e tão somente violência. Que nem tem muito a dizer. Aliás, até tem. Mas a mensagem final tem tantos ecos de lição de moral que acabei sentindo falta do Geninho, aquele bichinho do desenho animado da She-Ra.

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