21/02/2014

.: CINEMA .: Sobre o novo elenco do Quarteto Fantástico...


Sério: fãs, quando querem ser chatos e pegar no pé, consegue fazê-lo de maneira insuperável. Mas os fãs de quadrinhos parecem que conseguem fazê-lo num nível que ultrapassa o "épico". Vejam o caso da escalação do elenco do reboot do Quarteto Fantástico, que a Fox vai recomeçar do zero, ignorando completamente os dois primeiros. O que tem de gente chiando, gritando, esperneando, rasgando a calcinha e gritando aos quatro (hein? hein?) ventos que é um absurdo, que a Fox está desvirtuando os personagens, que vai fazer um filme total e completamente diferente dos quadrinhos, que isso é um absurdo e que a Marvel deveria tomar os direitos de volta à força… Detalhe: tudo que a Fox anunciou, até agora, foi o elenco. Mais nada. Os caras não sabem nem sequer um fiapo de história. Então, deixa eu tentar analisar a coisa do jeito que se deve.

Primeiro: entendo a birra com a Fox. Desde o mais ou menos "Demolidor" ao bobinho "X-Men 3", passando ainda pelo tenebroso "X-Men: Origens". É óbvio que eles não sabem tratar os personagens da Marvel como a própria Marvel trataria – e vem tratando, aliás, nos últimos anos, repletos de acertos. O grande lance é que a Fox também fez o primeiro "X-Men", que é bacana. Fez o segundo "X-Men", aquele com o Noturno, que eu acho bom pra caramba. E fez o incrível "X-Men: Primeira Classe", que acho simplesmente genial, até o momento o melhor retrato dos mutantes nas telonas. Detalhe importante: o diretor Josh Trank (do igualmente bom "Poder Sem Limites", que você, fã de super-heróis, deveria ver) já garantiu que este novo Quarteto vai estar mais próximo desta abordagem do "Primeira Classe" do que dos primeiros dois filmes do Quarteto – que a maior parte dos fãs odiou. Isso, portanto, deveria ser uma boa notícia, não?

Sem saber nada a respeito da trama, eu aceito que as pessoas critiquem as escolhas dos atores baseadas em seus trabalhos anteriores. Eu reclamei do Ben Affleck como Batman não porque ele não é parecido com o Bruce Wayne, mas sim porque vi outros filmes com ele e o acho um ator medíocre, mediano demais. Mas, Matt Damon tem razão, Batman não é Shakespeare e então estou disposto a dar o benefício da dúvida. O mesmo vale pro Jesse Einsenberg como Lex Luthor – eu pensava num Luthor mais velho e mais maquiavélico, mas OK, vambora, me surpreendam. O que me incomoda pacas é que, pelo menos nos últimos filmes dele que vi, o sujeito foi quase um clone do Michael Cera, interpretando no piloto automático. Mas, tudo bem, tenho minhas ressalvas, só que estou disposto a dar o benefício da dúvida. Agora… se você está criticando o ator apenas por uma foto, porque seus afiados instintos dizem, olhando para o sorriso do sujeito em uma foto de divulgação, que ele vai ser um fracasso, você está agindo exatamente como aqueles que criticaram a escolha do Hugh Jackman para o Wolverine ("ah, este ator australiano desconhecido e com cara de engomadinho?") ou a escolha do Heath Ledger para o papel de Coringa ("ah, o cara que fez o cowboy gay? Vai ficar um lixo!"). E isso é o tipo de coisa que acho que beira o ridículo.

Vamos lembrar dos dois filmes originais? Chris Evans encarnou um Tocha Humana perfeito, jovial e piadista como nos gibis. Embora a maquiagem tenha ficado meio ridícula, tipo borracha amassada, o Coisa de Michael Chiklis também funciona bem e tem a personalidade "durão de bom coração" bem adequada. E mesmo o Reed Richards de Ioan Gruffudd, embora não seja tão genialmente irritante quanto o dos quadrinhos, tudo bem, ainda funciona. O lance pegou mesmo na Sue Richards de Jessica Alba (mais chatonilda do que maternal, o que faria mais sentido) e principalmente na tenebrosa visão do Doutor Destino de Julian McMahon – que não é um ditador genial tentando dominar o mundo, mas sim um riquinho recalcado com dor de cotovelo porque perdeu a garota para o CDF da turma. No geral, no entanto, entre erros e acertos, até que o diretor Tim Story foi bastante fiel aos gibis. E por isso o resultado ficou bom? Não. O resultado foi um par de histórias pueris e que em nada acrescentaram à trajetória da família superpoderosa da Marvel Comics. Tudo depende, portanto, de um bom roteiro. De novo, "X-Men: Primeira Classe"é um excelente exemplo. E "Primeira Classe" está longe de ser um primor de fidelidade aos quadrinhos originais. Mas sabe captar o mais importante: o espírito da HQ original.

Antes que você se adiante, jogo uma questão: qual é a HQ na qual o novo filme do Quarteto Fantástico está se baseando? Pense de novo.

Já se sabe, senhoras e senhores, que o roteiro deste novo Quarteto Fantástico deve ser baseado na versão Ultimate do grupo – o que já dá uma diferença considerável de abordagem. Assim sendo, faz sentido que os atores escolhidos sejam consideravelmente jovens, já que a equipe ultimate é formada por adolescentes. Já começa daí. Faz todo o sentido que Reed seja vivido por Miles Teller (de "Projeto X") porque o jovem gênio é, na versão ultimate, o mais jovem integrante da equipe, um menino-prodígio. Kate Mara, de "House of Cards", será Sue Storm e também é uma escolha adequada porque Sue é uma garota ainda, pensando nesta versão ultimate. Mas uma garota quase tão inteligente quanto Reed e que, em muitas ocasiões, assume a posição de liderança do time. Na versão ultimate, antes de se tornar o Coisa, Ben Grimm não é um grandalhão do tipo caminhoneiro, mas sim um cara maior e mais velho (mas não necessariamente uma massa de músculos) que é amigo do jovem gênio antes de ambos entraram no projeto cientifico do Edifício Baxter que os apresenta a Sue. Então, Jamie Bell (que está em "Ninfomaníaca") também funciona – considerando ainda que, assim que ele se tornar o gigante de pedra, sabe-se que ele será totalmente CGI via captura de movimentos, como foi o Hulk de Mark Ruffalo em "Os Vingadores". Esqueça viagem de foguete e raios cósmicos em uma missão para bater a Rússia. Aqui, eles ganham os poderes depois de um experimento no que parece ser a Zona Negativa.

Ah, você deve estar se focando na seleção de Michael B. Jordan para ser Johnny Storm/Tocha Humana, certo? Especialmente porque ele é negro, e não porque é um bom ator? Hum. Bom, olha só, eu geralmente não tenho nada contra estas inversões étnicas caso a cor da pele não seja um elemento definidor do personagem. Em nada me incomodou o Rei do Crime de Michael Clarke Duncan em "Demolidor" porque, honestamente, tanto faz ele ser branco ou negro. O mesmo vale pro Perry White de Laurence Fishburne em "Homem de Aço". Isso não muda o personagem. Mudaria, por exemplo, se o Pantera Negra ou o Luke Cage fossem brancos, porque o fato de ambos serem negros têm muito a ver com a personalidade dos personagens. Para Johnny Storm, honestamente, em nada impacta ele ser negro ou branco, tanto faz. Talvez haja, claro, impacto no fato de que ele e Sue são irmãos nas HQs – e ele é negro e ela é branca. Mas ele pode ser adotado. Ela pode ser adotada. Ou eles podem ser filhos do mesmo pai, mas de mães diferentes. Ou vice-versa. Cara. É uma situação que, no mundo de hoje, se resolve tranquilamente. Esta não é a porra da África do Sul da década de 40.

Eu acho que os quatro atores são boas revelações. Merecem atenção. E confio no diretor – ainda mais porque, insisto, ele provou que sabe lidar com o gênero "jovens super-heróis" em um filme como "Poder Sem Limites". Não me importa que o estúdio seja a Marvel ou a Fox. Me importa que seja um bom filme. E bons filmes são feitos de bons roteiros, bons diretores, bons atores. Até agora, aparentemente, eles acertaram em dois itens da lista. Vejamos se acertam no terceiro. No caso deste filme, aliás, temos ainda um quarto item: o vilão. Que vai ser o Doutor Destino. Eis que as minhas preces começam desde já. Porque eles vão se basear na versão ultimate do Quarteto e, nesta versão, o Destino é uma BOSTA, bem menos interessante do que a sua versão do Universo 616. Se eu tenho um pé atrás com este filme, este é o único.