24/03/2014

.: CINEMA .: Nos EUA, Paramount vai parar de distribuir filmes em 35mm


Quando a gente fala em cinema, inevitavelmente pensamos na figura da película cinematográfica, do simpático projecionista a la "Cinema Paradiso" montando uma cópia rolo a rolo lá na parte de trás da sala de cinema, rolos tirados diretamente daquela lata clássica de metal, parte de todo o imaginário a respeito da Sétima Arte.

Pois bem: mais rápido do que se imaginaria, um dos grandes estúdios norte-americanos decidiu parar de distribuir seus filmes neste formato analógico. "Tudo Por Um Furo", continuação da comédia "O Âncora" com Will Ferrell, será a última produção da Paramount a ter cópias no formato de película de 35mm - até o momento, apenas pequenas produções tinham sido inteiramente distribuídas no formato digital. No entanto, recentemente, o indicado ao Oscar "O Lobo de Wall Street" já tinha seguido, com sucesso, o padrão 100% digital que o estúdio passa a adotar a partir de agora. A notícia é do jornal Los Angeles Times.

O mercado esperava que medalhões como a Disney e a Fox fossem tomar esta decisão inicialmente, já que ambos os estúdios tinham comunicado às principais cadeias exibidoras dos EUA que assumiriam este papel em no máximo dois anos.

É bom lembrar que a decisão da Paramount está restrita, inicialmente, apenas ao território estadunidense, já que os parques de exibição dos países da América Latina, por exemplo, ainda estão longe da digitalização ideal para considerar este tipo de distribuição. São centenas e centenas de salas ainda funcionando apenas e tão somente analógicas.

Vamos explicar a parada: os fãs mais antigos podem entoar odes apaixonados dizendo que este é o fim triste de uma era. Que é o fim de uma era, sem dúvida. Mas não diria que é triste. Pelo contrário, aliás - porque veremos uma melhora técnica significativa na projeção dos filmes que assistimos. Para se digitalizar, uma sala precisa de um projetor digital, muito mais moderno do que a grande parte dos projetores 35mm que temos por aí, além de um sistema de som mais adequado, enfim. A qualidade das cópias melhora e, para que se aproveite esta melhora, as salas terão que se equipar melhor. É um investimento obrigatório. Simples assim. Ah, isso está muito distante da nossa realidade? Um pouco, talvez, porque este é um processo caro. Mas saiba que as principais cadeias exibidoras em atividade no nosso país (Cinemark, UCI, Cinépolis e afins) estão tendo reuniões frequentes sobre o assunto, estudando as melhores formas para que esta transformação aconteça o quanto antes em nosso país.

Eles têm total interesse em se ver envolvidos neste processo pela questão da qualidade e pela facilidade que ela traz para os lançamentos 3D, é claro, mas também pela rapidez/praticidade que o sistema digital permite e, obviamente, pela drástica redução de custos no dia a dia, que atinge não apenas os exibidores, mas também os distribuidores, as empresas que efetivamente lançam os filmes. Pensemos: um filme de aproximadamente 1h30 costuma ter, em média, cinco rolos de filme fotográfico/película. Ah, pois é, um filme não cabe em um único rolo, é bom que se deixe claro. Pense que cada cópia do filme, com seus cinco rolos, custa em média US$ 2.000. Pense então num filme cujo lançamento é de médio porte, com cerca de 100 cópias. Só aí, já estamos falando em US$ 200.000. Isso só para fazer 100 cópias de um filme. Apenas fazer as cópias. O que é só o começo do processo.

O gasto não acaba aí: pense que é preciso transportar estas cópias para cinemas de todo o país. Pense não apenas no peso, mas no volume transportado - neste nosso exemplo, estamos falando de 500 rolos de filme. Coloque na conta ainda o valor das empresas de transporte, chegando a números como mais de US$ 400.000, e entenda porque, aqui no Brasil, uma distribuidora do tipo independente, aquela que não é das majors (como uma Paris Filmes, PlayArte, Imagem ou Europa, por exemplo), gasta em média 70% do valor de lançamento de um filme apenas com fabricação e transporte das cópias em 35mm. Muito mais do que é gasto com marketing, por exemplo. Num parque digital, os filmes podem ser mandados numa pen drive robusta (que não custa mais de US$ 100), por exemplo, em um formato específico de alta resolução e com uma chave de segurança digitalizada para evitar a pirataria. Percebe a simplicidade da coisa? No caso de algumas localidades, dá até para enviar o arquivo do filme via satélite.

Não se enganem: cinema é, gostem os cinéfilos de admitir isso ou não, um negócio. E negócios precisam dar lucro.

O passado pode ser muito bonito. Mas, em alguns casos, é melhor que ele fique mesmo no passado, para ser lembrado com carinho - mas sem atrapalhar o andamento do futuro. Deixemos algumas poucas salas do chamado circuito de cinema-arte com seus projetores 35mm retrô, para curtir tipos bastante específicos de filmes, com suas poucas e exclusivas cópias, e vamos colocar os blockbusters em formato digital. Tem pra todo mundo. E todo mundo fica feliz.

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