11/04/2014

.: CINEMA .: Capitão América 2: O Soldado Invernal

Os filmes desta segunda fase da Marvel nos cinemas têm se caracterizado efetivamente por fecharem com mudanças nítidas de paradigma para os seus protagonistas, deixando pistas interessantes sobre como eles vão se apresentar em seu encontro como grupo em Os Vingadores 2: A Era de Ultron.


Ao final de Homem de Ferro 3, Tony Stark está sem o reator no meio do peito – mas fica um cheiro no ar de que ele talvez esteja infectado pelo vírus Extremis. Quando Thor: O Mundo Sombrio se encerra, o Deus do Trovão anuncia a sua mudança para a Terra, deixando Asgard para trás, nas mãos do irmão Loki secretamente disfarçado como o soberano Odin. No entanto, quando sobem os letreiros de Capitão América 2: O Soldado Invernal, fica uma missão futura para Steve Rogers (Chris Evans), além de algumas perguntas sem resposta, dando as pistas mais claras até o momento de que, sim, teremos um terceiro filme do herói. Mas, mais do que isso, esta nova aventura do Bandeiroso termina em uma espécie de encruzilhada para todo o universo Marvel nos cinemas e também na TV. Uma mudança de paradigma que vai sacudir tudo. Porque afeta um elemento em comum em todos eles. E isso é realmente bastante empolgante.

Capitão América 2 é um baita filme de super-herói. Mas está longe de ser só isso, de ficar restrito a um filme de gênero. É também um filme de ação inteligente e interessante, com doses fartas das produções de espionagem dos anos 70, devendo bastante a um sujeito de nome Jim Steranko. Tem boas sacadas, tem uma série de surpresas que te tiram o chão, tem mistério, tem traição, tem um quê de humor.

E tem as melhores cenas de ação do Capitão lutando com o escudo, numa coreografia poderosa que lembra claramente os seus movimentos nos gibis originais de Jack Kirby. É muito melhor do que o primeiro Capitão América. Aliás, é o melhor filme da fase 2 da Marvel até o momento, melhor do que Homem de Ferro 3, melhor do que Thor 2. Eu arriscaria dizer inclusive que, ao lado do primeiro Homem de Ferro, é o melhor filme da Marvel nas telonas até então, deixando Os Vingadores de lado – o que é, sejamos, honestos, um elogio e tanto. Mas vale a pena, especialmente ao ver que críticos de cinema tradicionais, geralmente avessos às produções da Marvel, também estão se rendendo às qualidades da película.

O subtítulo do filme, O Soldado Invernal, pode enganar quem conhece o genial arco escrito por Ed Brubaker das HQs. Embora inspirado na obra, o filme está longe de ser uma adaptação. Na verdade, o Soldado Invernal – um ótimo retrato do lado sombrio de um antigo parceiro de guerra do Capitão, um dos personagens mais interessantes da Marvel Comics nos últimos anos – é apenas uma espécie de coadjuvante de luxo, um supersoldado colocado para caçar e deter Steve Rogers. A trama não gira ao seu redor, embora dê um salto assim que ele passa a aparecer de fato e sua identidade se torna conhecida. Capitão América 2 começa com um segredo no coração da S.H.I.E.L.D., do tipo que nem Nick Fury (Samuel L.Jackson) poderia, com todas as suas maquinações, imaginar. Acusado de traição, Fury se torna um alvo, assim como seus aliados. E todos estão na mira de Alexander Pierce (Robert Redford, perfeito), um dos políticos responsáveis pelo nascimento da agência de segurança em seus primórdios e que tem que prestar contas a um comitê global. Fury será culpado? Ou inocente? A pergunta é bastante comum para leitores fiéis da Marvel, por sinal.


Dizer mais do que isso seria entregar uma tonelada de spoilers e acabar com a trama, que tem no segredo um dos seus principais atrativos – mas dá para dizer que será possível ver o retorno da HIDRA, de um jeito que estamos muito acostumados a ver nos quadrinhos. E também temos a volta, ainda que com ares de participação especial, do cientista Arnim Zola (Toby Jones), um dos inimigos mais tradicionais do Bandeiroso, só que num formato BEM diferente. Nada como o Mandarim, do Homem de Ferro, do tipo que vai enfurecer os fãs mais tradicionalistas. Mas, ainda assim, diferente. E incrível. Excelente pegada.

A Viúva Negra (Scarlett Johansson), parceira do Capitão América ao longo de toda a trama, é talvez um dos seus maiores trunfos. Ganhando maior espaço em cena e importância do que em Homem de Ferro 2 e mesmo do que em Os Vingadores, ela é o contraponto ideal para o representante da pureza e da inocência de uma América agora distante. Enquanto o Escoteiro de bom coração tenta se adaptar ao nosso mundo e uma realidade mais cinza do que o preto e branco ao qual está acostumado, a ex-agente dupla do governo russo sabe o que é preciso fazer para seguir em frente, nem que para isso precise cruzar fronteiras e quebrar as regras. Além do quê, reina um clima divertido de tensão sexual entre as duas partes, nunca realizado mas sempre sugerido enquanto eles caem na estrada em busca de respostas.

Além disso, o Capitão ganha um novo parceiro – Sam Wilson (Anthony Mackie), o Falcão, seu grande amigo nas páginas das revistas. Ele é, na verdade, uma mistura das duas versões. Em termos de visual – e também pelas asas mecânicas – o ex-veterano de guerra de um esquadrão especial da aeronáutica lembra bastante a versão ultimate. Mas a personalidade é toda da versão original, o cara gente fina, cheio de frases de efeito e com um coração enorme que faz com que ele seja confiável até debaixo d’água. Neste sentido, Sam se torna a âncora de Steve com a sua antiga realidade, o mundo dos soldados que tinham orgulho de servir à sua pátria, o mundo das pessoas boas e que vão ajudar quem precisa sem pedir nada em troca. A dupla, aliás, encerra o filme reunida e forte o suficiente para acreditar que, se o Falcão não estará em Os Vingadores 2, com absoluta certeza dará as caras em Capitão América 3.

Outra que deve ter presença garantida num terceiro filme é Sharon Carter, a Agente 13. Outrora uma vizinha insuspeita do alter-ego do Capitão, ela logo se revela uma integrante da S.H.I.E.L.D. Mas se você esperava ver mais de Emily VanCamp, a bela intérprete da série Revenge, vai cair do cavalo. Nada de romance entre ela e o protagonista – aliás, em nenhum momento sequer se menciona que ela é neta de Peggy Carter, o antigo amor de Steve na Segunda Guerra Mundial. Fica, digamos, uma trilha interessante a ser seguida numa jornada futura. Assim como a aparição de Brock Rumlow (Frank Grillo), que em momento algum se manifesta sob a forma do Ossos Cruzados. Ele é apenas um brutamontes que age ao lado do grande vilão (que não é, leia-se, quem você imagina). Mas uma pequena cena nos minutos finais, que pode até passar despercebida se você não estiver ligado, dá a entender que ele deve dar as caras logo mais, em sua forma mascarada e mais brutal.

Além da já tradicional aparição de Stan Lee, simpática mas sem grandes arroubos de originalidade, Capitão América 2: O Soldado Invernal conta, obviamente, com as cenas depois dos créditos – portanto, nem precisamos dizer para você permanecer sentadinho até o final das letrinhas miúdas. Na verdade, a cena depois dos créditos totais nem é tão legal assim. Mas aquela que surge assim que passam os créditos animados é essencial. Porque tem link direto com Os Vingadores 2. Estão lá três novos personagens: dois heróis e um vilão, sendo que este último está intimamente ligado a tudo que rola ao longo de Capitão América 2. A pergunta que fica é: o que diabos ele tem a ver com o que vai rolar no filme do supergrupo da Marvel? Que relação ele tem com o psicótico robô Ultron (não, não é ele que aparece, a gente já adianta para você não ficar com o sensor de expectativas lá no teto)? Saberemos no futuro.

Capitão América 2: O Soldado Invernal deixa uma resposta muito clara para quem tinha incertezas a respeito do futuro do herói das estrelas e das listras em um mundo cada vez menos simpático aos EUA. Afinal, como fazer um sujeito vestindo a bandeira da terra de Obama ganhar o carinho do público? No primeiro filme, situado no passado, tudo tinha aquele clima de guerra, de filme histórico. Mas e agora, no presente? Ele não soaria datado, deslocado? Sim, exatamente. E o principal acerto desta continuação é justamente explorar isso, a crítica ao excesso de segurança, aos tempos estranhos e sombrios que vivemos, sob os olhos de um sujeito deslocado no tempo, reflexo de uma era bem mais inocente. Surpreenda-se, caro leitor: Capitão América 2: O Soldado Invernal também é um pouquinho filme político, tem lá a sua mensagem crítica. Mas tudo embalado por um lote generoso de explosões, perseguições e arremessos de escudos estrelados. Já é bastante coisa para o que deveria ser só um filme de super-heróis, né? :)

PS.: Fique de olhos bem abertos para a adaptação brasileira do livreto de anotações de Steve Rogers, logo no começo do filme. Cada país no mundo teve a sua. E também fique atento a um certo nome mencionado ao lado do nome de Tony Stark. Surpreenda-se com a gente. Porque é praticamente a confirmação oficial de que teremos um certo filme nas próximas fases da Marvel…

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