30/04/2014

.: CINEMA .: O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA 2: Um baita filme que deixa um mar de dúvidas para trás

Afinal, O Espetacular Homem-Aranha 2 é melhor do que o primeiro? Muito. E olha que eu tinha curtido a película anterior do diretor Marc Webb. Mas este está num nível muito acima. É mais inteligente. É mais divertido. Tem mais ação. Tem mais humanidade. E tem um espírito muito mais próximo ao do Cabeça de Teias das HQs.


Mas ele é um filme fiel aos quadrinhos? Depende. O que você quer dizer com isso? Ele não é a adaptação de um arco específico, se a sua pergunta é esta. Sim, ele tem uma série de liberdades. Mas, insisto, acho que ele é bastante fiel ao espírito dos quadrinhos originais, o que considero primordial. Muito mais do que uma história que repita ipsi literis o que se lê nas páginas deste ou daquele autor. Filme é filme, gibi é gibi, e isso eu respeito imensamente. Esta diferença de mídias sempre vai existir e o diretor precisa ser livre para criar, sem as amarras da fonte original. Mesmo assim, acho que Webb fez uma das obras cinematográficas que, até o momento, mais se aproxima da essência do personagem. Isso é muito. De verdade.

Mas, vá, o filme é melhor do que os filmes do Sam Raimi? Melhor do que o terceiro, sem dúvida alguma. Mas eu já tinha achado o anterior bastante superior à terceira incursão de Raimi no universo aracnídeo. Então não conta. No entanto, "O Espetacular Homem-Aranha 2" provou ser melhor do que o primeiro Homem-Aranha de Raimi. E está, digamos, equiparado ombro a ombro com o segundo, que considerei durante muito tempo como a visão definitiva do Escalador de Paredes nas telonas. Baita responsabilidade dizer isso. Mas digo sem medo.

O Andrew Garfield continua um Peter Parker indie-hipster-skatista? Acho que esta é uma visão reducionista da coisa. Fisicamente, pra mim, ele é um Peter Parker bem melhor do que o Tobey Maguire, que tinha uma cara de choro que me irritava um pouco. No primeiro filme, Garfield andava de skate, grande coisa, mas isso não fazia dele menos outsider, menos deslocado, menos nerdzinho na escola. Aqui, no entanto, não se tem do que se reclamar. Garfield está ainda mais à vontade no papel, e vemos um Peter Parker ainda mais sofrido, ainda mais abalado pela culpa, ainda mais pesado em sua jornada de poder e responsabilidade. E com uma química ainda mais certeira e crível entre ele e Emma Stone, a Gwen Stacy. A relação dos dois é bonitinha e verdadeira, cheia de altos e baixos, com a barreira do Homem-Aranha assombrando o futuro deles. É algo muito mais legal de se ver do que o romance abobalhado de Maguire e Kirsten Dunst - que, de longe, foi um dos maiores erros dos filmes de Raimi.

Mas quando ele usa a roupa do Aranha, não ficou engraçadinho demais? Falei dos erros dos filmes do Raimi. A falta do humor infame e irritante de Parker ao vestir sua roupa colante azul e vermelha era o principal pecado de Raimi naquele momento. Nos gibis, assim que põe a máscara, Peter se liberta. Deixa os problemas para trás, deixa as preocupações e se torna um piadista irrecuperável. Isso está no filme. A sequência inicial, quando ele encontra a gangue liderada pelo futuro Rhino de Paul Giamatti, é impagável, dá vontade de ver e rever, de novo e de novo. É o gibi cuspido e escarrado, sem tirar nem colocar nada. Como sempre quisemos.

Sobre o Clarim Diário, rola algo? Quase. Não é o foco da história. Mas é possível saber que Peter ganha uma grana vendendo fotos do Homem-Aranha para o jornal. Não, o J.Jonah Jameson não parece fisicamente. Mas digamos que sua, er, presença, pode ser sentida. E do jeito que estamos acostumados. Há quem já aposte que, com a deixa plantada aqui, é quase certo que o irascível editor do Clarim dê as caras no terceiro filme. Faria bastante sentido. Se fosse vivido pelo J.K.Simmons, ia ser uma surpresa infalível.

Aquele papo dos pais dele, fala sério, continua? Sim. Até certo ponto. Foi, obviamente, o grande defeito do filme anterior. Peter vai descobrir muita coisa a respeito dos estudos de seu pai e de sua relação com a Oscorp e com Norman Osborn - estabelecendo um norte bastante alinhado com o que pudemos ler na versão ultimate do personagem, o que é bastante interessante para alguns fãs e absolutamente irritante para outros. Descubra onde você se encaixa. O tal segredo é uma espécie de elo de ligação com os próximos filmes da franquia, incluindo o do Venom e o do Sexteto Sinistro. Mas a trama dos pais, a obsessão de Peter em desvendar suas origens, seu passado, se fecha aqui. Os pontos se ligam. E fica uma sensação, creiam-me, libertadora para o terceiro capítulo.

Ele, por acaso, diz "com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades"? Infelizmente, não. É uma pena. Teve até uma determinada cena, com a Tia May, em que isso faria bastante sentido. Aliás, uma coisa importante é que, neste filme a relação dele com seus tios ganha um pouco mais de destaque, um destaque devido e que acabou um tanto deixado de lado na história anterior. Numa discussão emocionante com a Tia May, Sally Field entrega uma performance fantástica e dá a bronca que todos nós vínhamos querendo dar em Peter. Acerto imediato de Webb aqui. Também começamos a nos deparar com os problemas financeiros da família, que passam a atingir Peter em cheio - isso não lhes traz algum tipo de recordação?

Mas, vamos ser francos: três vilões não é muita coisa? Preocupação infundada. O vilão da história é o Electro e ponto, por mais que a trama não gire 100% ao seu redor. Muitíssimo mais inspirado na versão ultimate do personagem, tanto por seu visual quanto por seus poderes, este Maxwell Dillon de Jamie Foxx funciona bem. É poderoso e ameaçador mas, obviamente, tem no ego inflado do nerd que outrora foi reprimido e tímido e agora se tornou uma arma viva seu calcanhar de Aquiles. Os outros dois vilões são, digamos participações especiais. O Rhino, de armadura, aparece por cerca de dois/três minutos - e com um objetivo bem específico, ainda que fazendo referência ao surgimento do Sexteto Sinistro. Não é nada de mais. E não existe uma única cena na qual o Aranha lute com os três ao mesmo tempo.

E aquele Duende Verde bizarro? Em 95% do filme, Dane DeHaan é apenas Harry Osborn, amigo de infância de Peter Parker e herdeiro da Oscorp, que voltou de um exílio na Europa imposto pelo pai, Norman. Sua fragilidade transformada em loucura são bem exploradas e funcionam bem na relação delicada com Peter. Dane prova ser uma escolha acertadíssima. Em um dado momento, pressionado pelas circunstâncias, ele passa por aquela transformação, diretamente ligada aos estudos do pai de Peter. O visual, é fato, é bem esquisito mesmo. Mas a cena em que ele aparece é praticamente simbólica. Tem um objetivo específico - além de criar a conexão central para a existência do Sexteto Sinistro. Ele vai ser o líder do time. Ele vai reunir os integrantes - que, apesar das asas do Abutre e dos tentáculos do Octopus, podem ser um pouco mais B do que a gente imagina.

Norman Osborn. Ele dá as caras? Bem pouco. Chris Cooper está bem no papel, mas poderia ter desempenhado muito mais. Eu achei que ele teria uma participação maior. Talvez ele volte a aparecer. Talvez. Caso os roteiristas resolvam se inspirar nos momentos mais recentes das HQs. Dizer mais do que isso seria fazer um spoiler danado e desnecessário.

O sujeito do chapéu. Ele também aparece? Aparece. Novamente, numa aparição relâmpago. E a gente continua sem saber quem ele é. Embora um nome misterioso fique no ar. Um nome relacionado, em primeira instância, a um vilão B dos gibis do Demolidor e que, em sua terceira encarnação, tornou-se antagonista do Homem-Aranha. Vamos ver se você saca antes mesmo de ver o filme. :D

E a Gwen Stacy usando AQUELA roupa, quer mesmo dizer alguma coisa? Você vai saber. Na hora certa. O filme dá esta resposta, é o máximo que podemos dizer.

É filme para ver em 3D? Com certeza. Se der, ainda, em Imax. Os efeitos especiais estão no auge, a movimentação do Aranha está perfeita, em seu melhor momento cinematográfico. Finalmente vemos, na tela, algo fidelíssimo às acrobacias entre os prédios que se via nos grandes momentos de nomes como Todd McFarlane e Mark Bagley. É tudo fluido, natural, quase um balé. Aliás, conforme um papo que tive com o Julio, amigo e sócio da época do finado site A ARCA, chegamos a uma definição boa. O Maguire era um Homem-Aranha mais John Romita. Este Andrew Garfield é um Homem-Aranha mais Mark Bagley mesmo.

Tu diz que costuma chorar nos filmes do Aranha. Chorou neste? Sim. Duas vezes. Uma delas era natural, não dava pra ser diferente. Mas a outra, que me apertou o coração e me fez pensar "cara, este é o meu herói mesmo", envolve uma criança. Sabe aquele moleque cujas fotos ao lado do Garfield a gente tem visto com frequência na web? Pois é. Ele está no filme. E tem um papel importante. Mesmo. Não tanto para a história. Mas para a definição da personalidade do Homem-Aranha e sua missão daqui pra frente. Incrível. É só o que posso dizer. Ele e a Tia May são os grandes impulsionadores desta nova jornada de Peter Parker. Que, eu espero, deve ter um terceiro capítulo simplesmente inesquecível.

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